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30 set

“a verdade é que a vida é o gráfico de uma senóide. cheio de cristas e vales.” post-it da aula de ondulatória

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A Tristeza Permitida

26 jul

Crônica de Martha Medeiros retirada do livro “Doidas e Santas

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que normalmente faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa,ir pro computador, sair para compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem para sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer para eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro da nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.

Depressão é coisa muito mais séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou com si mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.

Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago de razão/ eu ando tão down…“. Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim“, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar o seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinicius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip hop, e nem por isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.

Trip

2 jan

Na viagem de ida pegamos um ônibus que parava em todo e qualquer lugar que pudesse subir mais gente, esquecemos de perguntar se o ônibus ia direto e ficou claro que não depois da terceira parada. Gastamos mais de três horas e meia numa viagem que dura, mais ou menos, duas horas. E nem na janelinha eu fui! Fiquei com a poltrona do corredor evitando o tempo todo que, com aquele vai-e-vem de gente, esbarrassem no meu travesseiro (e lendo Death Note, né).

No primeiro dia no hotel ficamos até quase quatro da manhã conversando entre CDs de MPB e cervejas e cigarros. Fomos dormir meio sem sono e conversamos mais um pouco ainda até o sono chegar e reinar o silêncio, finalmente. Acordamos e já era o último dia do ano. Mais pessoas chegaram, pessoas que coloriam o ambiente, com certeza.

As meninas de vestido, os rapazes bem vestidos, jantamos macarrão, nada de ceia de Réveillon, somos maiores que isso (aham). Mensagens desejando “feliz ano novo” devidamente mandadas, algumas respostas recebidas e opa! Já eram onze horas. Saímos de casa, nos amontoamos no carro, buscamos a praça, levamos nossos champanhes e, enquanto corríamos subindo a rua em direção à praça, começaram os fogos. Não sabíamos se já era meia-noite ou não, mas começamos a nos abraçar ali mesmo. Chegamos na praça e descobrimos que só então era meia-noite, tudo bem, outra sessão de abraços. Fotos, champanhe, uma volta na praça e os meninos encontram conhecidos. Voltamos pro hotel, sentamos no quarto e escrevemos num papel o que queremos pra 2009, me senti quilos mais leve quando terminei, não sei porque, mas me senti.

Primeiro dia do novo ano começou tranqüilo, acordei com minha amiga me dando um beijo na testa de despedida, estava indo pra uma cidade ali perto almoçar com a família. Fomos almoçar no centro da cidade e voltamos pro hotel, um pouco de piscina e eu e minha amiga resolvemos dar uma volta sozinhas pela praça. Saímos do hotel e ela me pergunta “você sabe chegar lá?”, não sabíamos, mas achamos. Andamos um pouco, um pouco (muito) de sorvete da Claerrô, um pouco de conversa na praça, um pouco de bar e voltamos ao hotel. Mais piscina, dessa vez com muita música e muita companhia.

Dia hoje começou com muita preguiça, dia de ir embora. Ligamos na rodoviária, olhamos os horário, arrumamos as malas, nos apertamos no carro mais uma última vez e fomos deixadas na rodoviária. A viagem de volta teve algumas paradas, mas nada de mais se comparada à de ida. Tínhamos um vizinho de poltrona com um celular cheio de músicas sertanejas, agüentamos por um tempo, mas depois começamos a competir com as nossas músicas. A volta foi mais rápida, não sei se pelo motorista louco que corria tanto que fazia o ônibus chacoalhar, se porque estávamos lendo ou se porque era a volta mesmo.

Meu ano começou muito bem, nunca fui de esperar muito de um ano só por ele ser “ano novo”, mas sinto que esse ano vai ser ótimo. Agradeço às águas quentes de Caldas Novas, aos meus colegas de quarto e de piscina privada, às minhas amigas-companheiras Taís e Marina, ao Fernando que ofereceu hospedagem pra nós, ao Mário Prata pelo livro “Cem Melhores Crônicas” que tem feito meus dias e me roubado várias risadas e ao ano de 2009, claro, que me dará dias e mais dias pra acostumar (e aproveitar) com esse tempo louco que não pára.

Literal

13 jun

Eu sou palavras, palavras muitas vezes ocultadas, guardadas. Palavras muitas vezes jogadas sem pensar uma única vez, saem com força de tiro de canhão e podem machucar como tal. Essa sou eu, palavras. Sou a soma daqueles que amo, é só olhar para os meus lados e entenderá, são sorrisos e abraços. Sou, portanto, palavras e amor.
Pode soar engraçado (talvez cafona) ouvir alguém do “alto” de seus recém-completos dezessete anos falar de amor, mas posso afirmar que nasci assim, parte amor parte palavras. Daí o amor às palavras e as – melosas – palavras de amor. Por isso, quando aprendi a falar não pude parar mais, por isso também errei algumas vezes e foi com estes erros que aprendi: palavras não devem ser desperdiçadas com besteiras. Sou aprendizado ao longo de meus anos, anos estes recheados de histórias que hoje pertencem ao passado, mas há pouco ainda pertenciam a mim.
Não sou grande enigma, por trás do meu olhar não existe grande segredo e não lhe devorarei se não me decifrar. Sou o que falo, o que sinto e principalmente o que penso. Apesar de ser mais sentir do que pensar, penso muito mais que sinto e sinto muito junto do que penso. Não sei balancear, erro nas doses, exagero, mas sou una.
Começo assim algo que não pertence a mim, mas às palavras.