Arquivo | maio, 2009

Mulher

14 maio

Um dia inteiro, cheio. Parecia estar no piloto automático. Quanto tempo passou dando as respostas esperadas a tudo o que lhe era perguntado?

Abriu o box, girou a torneira, deixou a água cair em seus ombros. Molhou seus longos cabelos, seios, ventre, pés. Molharam suas bochechas as lágrimas que caíram no mesmo ritmo dos pingos do chuveiro.

Sempre invejou as meninas aventureiras das histórias que ouvia falar, aquelas que saíam de casa aos quatorze anos em busca de seus sonhos. Viveu com a avó até os dezenove, quando passou no vestibular e mudou de estado.

Pegou o sabonete, esfregou o rosto. Odiava molhar o rosto, sentia como se fosse afogar e odiava aqueles segundos que era obrigada a passar de olhos fechados.

Durante todo o curso foi a aluna exemplar. Vivia para os estudos e se teve amigos enquanto isso, foram um ou dois. Era sozinha. Depois que a avó morreu, o telefone nem tocava mais.

Pegou o xampu e esfregou o couro cabeludo. Seus cabelos eram longos como sua avó dizia que teriam de ser, assim como suas roupas. Tudo era comedido, regulado.

Passou o condicionador em toda a extensão do cabelo, essa era sua parte favorita. Penteou os fios loiros de raiz a ponta.

Já há um ano gostava de um rapaz do trabalho, mas não podia dizer. Era presa em si mesma, encadeada. Já não agüentava mais chorar no banho. Sozinha.

A água escorria por todo o seu corpo. Pegou o sabonete e esfregou na barriga com força, com raiva. Chorou mais. Queria ser livre, decidira ser livre.

Deu um nó no cabelo, lavou a nuca, lavou as costas, lavou o pescoço. Ensaboou as coxas, olhos fechados. Sentiu.

O ritmo dos pingos e o de seus gemidos se misturavam, um uníssono. Um grito baixo de independência.