Arquivo | março, 2009

Estátua de Sal

22 mar

Tantos passos já andados e agora ouço algo que me faz parar e pensar em olhar pra trás. Como poderia ter fé em algo que nunca me deu motivos pra acreditar? Tive sonhos e meses e nada.

Os tolos pensam demais, planejam, ensaiam o que dizer e acabam nunca realizando. Eu, mesmo tola, disse. Disse várias vezes. Disse tantas vezes. Por meias palavras, talvez, mas são as meias palavras que me constroem inteira. Quem assistia entendia, por que você não entenderia? Entendia. Cansa saber que entendia. Cansa não entender. Cansa ser sua sem ser. De cansaço em cansaço, abri mão. Por meio de palavras, abri mão. Meias palavras de uma desistência inteira. Decisão tomada, segui.

Ah, prefiro continuar a andar e ouvir o som só dos meus passos a virar sal.

A (quase) certeza do incerto

21 mar

Fim da última aula do último dia de aulas da semana, estava guardando os materiais e segurando pra não jogar tudo pro alto e sair correndo dali. Foi assim que ouvi: “Eu assumo. Assumo que sou de Humanas por preguiça, porque não sei mais nada. Se soubesse isso aí (aponta para o quadro onde se vê uns gráficos, umas contas e muita Física), se soubesse… Não iria querer Jornalismo!”. Me surpreendi com o que ouvi saindo de minha própria boca.

Boa aluna fui só até a 7ª série, foi aí que a coisa desandou, fui apresentada à vida fora de casa e tudo brilhava mais do que livros e estudo. Daí pra frente é que a coisa desandou mesmo. Recuperação pela primeira vez na 7ª série and I’m not proud of that! Matemática, claro. Se ainda no Ensino Fundamental eu me ferrava, imagine no belo Ensino Médio.

Humanas são História, Geografia e Língua Portuguesa, basicamente. São ou não as matérias mais fáceis do mundo escolar? Mesmo os que têm calculadora científica acoplada ao cérebro são maisoumeninhos em Humanas, já os de Humanas… Sempre tem o aluno bocó que passa o Ensino Médio inteiro dizendo “sou de Humanas, pra que vou precisar disso na minha vida?” nas aulas das outras áreas. Esse aluno bocoió vai chegar no vestibular e acertar muito em Humanas e levar ferro em Biológicas e Exatas. Viu pra que precisa disso na sua vida, querido futuro aluno de cursinho? Precisa pra digievoluir de aluno de Ensino Médio pra calouro universitário. Ok, alright, “o sistema de ensino no Brasil é uma merda! Tá tudo errado, temos que mudar, fazer a revolução!”, blá blá blá… Só digo uma coisa: enquanto você reclama todos os dias da inutilidade das outras áreas e põe a culpa no sistema, seu concorrente está estudando. E não é só seu coleguinha de turma que está reclamando com você que é seu concorrente não, querido, há muitos outros e são eles que vão tirar as suas vagas. Isso vale pra qualquer aluno que subestima as outras áreas, não só os de Humanas. Falo diretamente para os de Humanas porque os conheço intimamente, digamos.

Penso em Jornalismo desde a 8ª série e já há algum tempo venho questionando essa minha certeza tão absoluta. De 2005 pra cá, pensei também em fazer Moda, Arquitetura e Direito. Direito foi só um surto de “poxa, todo mundo que é de Humanas quer Direito, por que não?”, mas foi algo bem rápido, já estou bem. Moda foi levado a sério por um tempinho, cheguei a recortar propagandas da Capricho de universidades que ofereciam o curso e a ter um caderninho onde eu colava imagens de peças de roupas e acesórios que gostava e, vez ou outra, arriscava uns rabiscos. Arquitetura, eis o que me deixou em dúvida algumas vezes durante o ano passado, eis o que me fez questionar minha bela e límpida fé na certeza da escolha pelo curso de Jornalismo. Desde pequerrucha convivo com o mundo dos arquitetos, já que sou filha de um. Tudo bem, pode fazer piadinha sobre a sexualidade dos arquitetos, conheço algumas boas também. Minha avó paterna tentou muitas vezes me convencer a fazer Arquitetura e tinha bons argumentos: 1) Sendo meu pai arquiteto, teria eu toda uma facilidade em algumas coisas que poderia precisar; 2) A UFG abriu o curso de Arquitetura ano passado, o que não me faria ir a Anápolis todo dia se optasse pela UEG; 3) Pra eu conseguir meu lugar ao sol no mundo do Jornalismo sem conhecer ninguém da área seria extremamente difícil. E não é que desde pequenina eu gostava do que via o papai fazendo? Mesmo depois de crescida – e de ter percebido que as olheiras do papai vinham do tanto que arquiteto é sinônimo de workaholic –, ainda simpatizava.

Eis que ontem, depois de desabafar litros pelo msn com uma amiga, vem a proposta: “Vamos fazer assim: você presta pra Arquitetura na UnB no meio do ano e eu presto pra Desenho Industrial, daí fazemos aula de desenho até lá. O que acha?”. Bom, acho algumas coisas… Acho que desenho mal, mas sempre quis aprender a desenhar. Acho que as aulas de desenho podem ocupar muito do meu tempo “livre” (também conhecido como “tempo em que você tem que fazer alguma coisa se não a idéia de que você não está fazendo nada e está no cursinho te enlouquece”), o que pode não ser bom. Acho uma boa idéia. Acho arriscado mudar de planos agora. Acho que não consigo decidir nada sozinha e preciso expôr minha confusão mental gritando no colégio e tendo uma semi-crise de choro e riso através de um post no blog.

Então, será que devo levar a sério o que minha boca falou há algumas horas? Se sim, será que devo mudar de curso? Se sim, será que não é tarde, “em cima da hora”? Justifique a sua resposta de maneira clara e concisa. 😉

A massa da indústria de massa

16 mar

Durante a ditadura militar no Brasil, a mídia serviu de máquina de propaganda favorável ao modelo governamental vigente. Daí surgiram os questionamentos quanto à qualidade do que se vê na televisão. É fato que, após 64, muitos começaram a renegar a mídia televisiva brasileira e a criticar veemente as telenovelas, qualificando-as como alienantes.

É certo que autores de novelas têm em mãos um imenso poder, já que têm a oportunidade de entrar em quase todas as casas brasileiras abordando os mais diversos assuntos. Com a história da evolução das telenovelas é possível vermos também tabus serem superados e a mudança comportamental dos brasileiros ao longo dos anos. Como exemplos, podemos citar a maior inserção de atores negros, a presença de casais homossexuais e a abordagem de assuntos relacionados a preconceitos. A abordagem de tais assuntos em rede nacional mostra ser possível a construção de um novo cenário social, de uma sociedade mais consciente de suas diferenças e cada vez mais tolerante, mesmo que isso seja uma mudança lenta e gradativa.

A maior crítica quanto aos folhetins é serem mais usados como forma de diversão do que como algo informativo-crítico, daí dizer que alienam o povo. Segundo pesquisas de audiência, as novelas mais vistas são as da Rede Globo e elas obedecem a uma ordem lógica: a novela das 18 horas é, geralmente, uma novela de época que não precisa de muita atenção para ser compreendida; a novela das 19 horas é separada da novela das 18 pelo jornal local – esse horário é estratégico para esse jornal, já que é o horário em que a maioria das pessoas chega em casa após o expediente – e sua trama é, normalmente, recheada de situações cômicas, como se fossem feitas para relaxar o trabalhador após um longo dia de trabalho; a novela mais vista (sendo também o horário mais caro e com maior retorno para publicidade) é a das 20 horas (que faz tempo começa só às 21 horas), que vem logo após o Jornal Nacional – também colocado em um horário estratégico, já que enquanto o povo espera a novela, vê as notícias do Brasil e do mundo (sob apenas um olhar, mas isso é outro assunto) – e é a novela com a trama mais complicada, é normalmente nesta que acontecem as situações mais críticas ou disseminação de opiniões. O homem procura sempre estabelecer um ciclo ou se adequar a um, essa rotina da Globo se infiltra na cabeça das pessoas fazendo com que elas programem suas vidas de acordo com esses horários. Grande parte da população vive “para” a televisão e forma a sua personalidade – em grande parte – do que assiste, são produtos da mídia.

As telenovelas brasileiras não são só mocinhas ou vilãs, não são obras de arte ou empobrecimento cultural, são uma forma de falar com grande parte da população ao mesmo tempo. Pode ser que há tempos mantenham a mesma fórmula e pouco mudem de uma para outra, mas é certo que têm um grande poder. O povo é influenciado pelo que vê na TV, já que é mais fácil assimilar opiniões prontas do que pensar e criar a sua própria, aí poderíamos criticar as novelas, mas poderíamos também criticar os telejornais e até mesmo a mídia escrita. O problema não está na forma como a novela trata o povo, está em como a mídia como um todo os trata.

PS: Tempo demais sem postar e agonia de ver isso aqui ficando cheio de teias de aranha me levaram a postar essa redação, a primeira que fiz esse ano – e única que fiz bem – pro cursinho.

PS2: Tive duas reclamações sobre o “abandono” do blog e ambas vieram da mesma pessoa… Beijo, Joss! Dedico esse post a você.