Ermo

5 jan

Olhando pra agenda. Foi olhando pra agenda que ele percebeu quanto tempo passou, tempo contado nas páginas antigas de velhas agendas empilhadas em um canto do quarto. Quando eu fui ficar tão sozinho? Foi o que ele pensou quando pegou a agenda e não viu nenhum número para o qual ligar, nenhum além do delivery da pizzaria de sempre. Não estava com fome.

Continuou sentado, olhando pra agenda, a nova agenda, um novo ano, nenhuma novidade. Quando minha vida virou essa rotina? Foi o que ele se perguntou. Pegou uma agenda velha no meio das agendas velhas e a abriu, na primeira página, antes mesmo da página dos dados pessoais, havia um recado sem assinatura. Ele leu e sentiu uma onda de calor aquecer todo o seu corpo. Quando foi que perdi meu calor? Foi o que ele quis saber, mas logo esqueceu essa pergunta e quis saber outra resposta: Quem escreveu esse recado que me fez sentir como antigamente?

Horas se passaram e já não havia espaço no chão, só haviam agendas espalhadas, abertas e um homem no meio delas, aberto. Não sabia se chorava, se ria, não sabia nem o que sentia e se sentia. Quem eram aquelas pessoas das quais os aniversários ele nunca esquecia? Onde elas foram parar? Como ele foi parar sozinho no chão da sala, com mais de 40 anos e só o número do delivery da pizzaria na agenda?

Olhou o relógio, eram três da manhã. Tenho que trabalhar amanhã, foi o que ele pensou. Acho que estou com fome, foi o que ele disse ao pegar o telefone e discar o único número que sabia de cor. A pizza chegou em menos de 30 minutos, ele pagou, comeu, passou pela sala e foi dormir. O tempo não pára, não posso parar, foi o que ele repetiu até cair no sono.

Seis da manhã, o despertador tocou. Levantou, escovou os dentes, vestiu o terno, pegou a pasta, caminhou por cima das agendas espalhadas pelo chão. Não tropeçou nenhuma vez.

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7 Respostas to “Ermo”

  1. Ândre janeiro 5, 2009 às 11:14 pm #

    já disse o que eu acho sobre os seus textos, né?
    extremamente bem escritos e que envolvem quem os le. esse não poderia ser diferente. muito original, laurita. 😀
    o final não ficou como eu esperava de um texto seu, mas ficou bom.
    bessos.

  2. Zen janeiro 5, 2009 às 11:45 pm #

    Eu quero dedicatória quando você começar a vender livro que nem água no deserto, viu? huahuah
    Ótimo texto e ficou melhor com esse final do que com qualquer outro
    =*

  3. Riccardo Joss janeiro 5, 2009 às 11:49 pm #

    Censura é uma coisa que nunca vai acabar por aqui. Queria tanto ter liberdade pra falar mal da Clarice Lispector, mas nem posso.

  4. Riccardo Joss janeiro 5, 2009 às 11:49 pm #

    o comment censurado: Eu daria 10, ficou bem legal, mesmo que com características de Clarice Lispector.

  5. Laura janeiro 5, 2009 às 11:58 pm #

    Joss fazendo drama, as always. Eu apaguei o outro comentário sem querer, já disse.

  6. Jordana janeiro 6, 2009 às 6:25 pm #

    Lindo. Muito original. Adorei o final 🙂

  7. Pedro Vitor janeiro 11, 2009 às 3:13 pm #

    Típico texto perfeito pra um monólogo. Fui lendo em voz alta aqui, tentando seguir o que ele parecia sentir, e me arrepiei. Muitas metáforas, talvez por você nem pensadas, mas indiscutivelmente um texto ótimo, reflexivo, como os que eu gosto. Parabéns, Laura.

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