Arquivo | janeiro, 2009

Chá Novo

22 jan

Se tem algo em que grande maioria do mundo concorda é que vai emagrecer no próximo ano, essa é a promessa mais feita pelos seres humanos desde o primórdio dos tempos. Na verdade a promessa começa com a proximidade do verão, todo mundo querendo exibir o corpinho esbelto por aí nos dias quentes, mas a maioria das pessoas acaba é engordando nas férias… Daí chega Janeiro, trazendo um novo ano e a mulherada – maioria dos prometedores de plantão é fêmea, tem nem o que discutir – começa a pensar no carnaval, as academias lotam.

Ryot IRAS

Dia 31 de Dezembro de 2009, estávamos eu e duas amigas sentadas na cama, com papel e caneta nas mãos, escrevendo as resoluções de ano novo e dentre as minhas estava “ser mais saudável”. Dois dias depois cheguei de viagem e já fui contando pra mamãe a minha mais nova invenção: voltar à academia.

Meu histórico de atividades físicas é, digamos assim, um fiasco. Sempre odiei exercício físico, sempre! Quando era pequena não gostava de pular corda nem elástico, eu era ruim, não queria treinar e tinha vergonha. Isso se aplica também à bicicleta, nunca aprendi a andar sem rodinhas. Gostava de natação, fiz durante muito tempo, mas como mudava muito de casa, acabei cansando de trocar sempre de academia também. Além do que eu tenho, desde pequerrucha, problema no ouvido. Não pode entrar água que pronto, é um deus nos acuda. Com 7 anos comecei a fazer ballet, fiz até os 13 e, enquanto isso, fiz também um pouco de pilates, jazz e sapateado. Eu realmente gostava/gosto de ballet, mas meu pai me convenceu a parar de fazer, era época de vacas magras e ele disse “você não vai seguir carreira mesmo, né?”. Eu era a gordinha da turma, mas mesmo assim fui pra Santos fazer curso de ballet e jazz, tá meobein? Mas concordei e acabei parando. Na quinta série, tentei vôlei, adorava ir pra quadra do colégio a pé, adorava andar pelo Centro da cidade, mas eu era ruim na atividade em si. Na sétima, comecei a frequentar uma academia, mas pouco tempo depois meu pai descobriu que eu estava faltando pra conversar com uma amiga na porta. Na oitava, tentei handball, mas quando percebi que mais uma vez era ruim, passei a faltar as aulas pra dar conselhos amorosos pra um casal de amigos (?) e depois comecei a fazer teatro. No Ensino Médio fiz tudo – yoga, leitura de clássicos, xadrez, teatro, etc – que servisse de nota pra Educação Física, menos exercício em si.

Pois bem, me matriculei na academia segunda-feira: musculação três vezes por semana e jump duas vezes por semana. Como boa sedentária que sou, faltei a aula de jump na segunda porque estava com preguiça queria ver Quarentena (o pior filme desde O Apanhador de Sonhos). Terça fui, mas chegando à porta da academia vi que do outro lado da rua tinha surgido um barzinho improvisado, o que eu penso? Que deveria estar bebendo (mãe e pai, eu não bebo) e comendo espetinho ao invés de estar indo fazer exercício físico? Também, mas não só isso. Pensei “pronto, dia desses um bêbado resolve me seguir!”. Sim, mania de perseguição deveria ser meu nome. Nada aconteceu e no outro dia lá estava eu, pronta pra sessão de tortura aula de Jump. Conheci professora e colegas, todas muito simpáticas, me senti bem. Daí me pedem pra subir numa balança e tirar minhas medidas, beleza, joga na cara o porque de eu estar aqui. Não bastasse isso, faltando uns 10 minutos pra acabar a aula, comecei a passar mal. Eu, tremendo, olhei em volta e vi a galera suando e tudo, mas todo mundo inteiro, menos eu: a mais nova da turma. Não bastasse estar tremendo, minha visão começou a escurecer. No final da aula, já estava bem e participei da melhor parte: receber massagem. Hoje estava tudo muito bom, tudo muito bem, até a hora de voltar pra casa. Estava subindo a viela quando percebi que vinha um homem atrás de mim, continuei andando, ele continuou andando, parei pra ver se vinha algum carro, olhei pra trás, ele ainda estava lá, voltei a andar, ele também, comecei a andar mais rápido, ele continuou andando, virei na minha rua, ele também, cheguei na porta de casa, cumprimentei o porteiro, fechei o portão e olhei pra trás, ele passou. Quando a porta do elevador fechou, me peguei pensando “porra! agora ele sabe onde eu moro, se um dia quiser me atacar, sabe que tem que ser antes da minha rua”. Eu sei, a probabilidade de o cara estar realmente me seguindo é pequena, mas diz isso pra minha mania de perseguição, diz! Só digo uma coisa: isso de fazer academia ainda vai me render muita história, certeza. E, tomara, uns quilinhos a menos.

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O mundo todo e um apartamento

20 jan

Conversando com uma amiga, enquanto olhávamos guias de viagem e livros de algumnúmero de coisas pra fazer antes de morrer, eu falei “Quer saber como vou descobrir que o cara é o cara da minha vida? Quando estivermos no carro e eu disser ‘não volta pra casa, vamos pra numseionde!’ e ele empolgar também”. Ela concordou, até terminamos a frase juntas. Pouco antes, vimos um livro que citava Jack Kerouac na capa e não sei como posso estar viva até hoje sem ter lido On The Road, livro em que Jack relata sua viagem de 7 anos pela rota 66 com seu amigo Neal (personagem principal do livro sob o nome Dean Moriarty).

Há algum tempo (é provável que ela não lembre, já que memória não é seu forte), conversando com essa mesma amiga, ela me disse que queria um apartamento pequeno fixo, mas queria viajar muito. Até então eu nunca tinha pensado nisso, mas pouco tempo depois me deparei com a comunidade Não Patrimonialistas no Orkut, cuja descrição é “Eu quero um pequeno apartamento e viajar pelo mundo! Você também? Então entra aí!”, li e me senti intimada a me juntar a essas pessoas. Pouco tempo depois, descobri outra comunidade, a Queria uma vida “road-movie” e, mais uma vez, me identifiquei. É exatamente isso o que quero, exatamente. Quero um apartamento pequeno pra ter pra onde voltar, mas quero uma mochila, uma câmera e um lugar pra anotar tudo o que eu descobrir durante as viagens que fizer.

Hoje eu estava desanimada, ando cansada, mesmo estando de férias e sem motivos para cansaço. Minha amiga reclamou, queria a Laura livin’ la vida loca, implorou pra sairmos de noite, mas no fim ela desanimou também. A moça é estudante de Arqueologia e já faz um tempo que vem insistindo e procurando companhia pra viajar pela América do Sul e Central, mochilão mesmo, sem frescura, mesmo não sabendo espanhol. Moça cheia de grandes sonhos, de grandes dúvidas, cheia de vontade de conhecer o mundo, conhecer as civilizações antigas, conhecer outras culturas, outras histórias… E no final, voltar pro seu pequeno apartamento fixo em algum lugar, com uma mochila e várias lembranças. De alguma forma, na conversa supracitada, ela despertou em mim algo que acabou se transformando em um sonho e hoje, mais uma vez com ela, me lembrei desse sonho e não pretendo mais esquecer. Ou desistir. Mas para todos que compartilham desse sonho, quero acrescentar o que Chris McCandless aprendeu com a sua viagem into the wild: “A felicidade só é real quando compartilhada”.

Ermo

5 jan

Olhando pra agenda. Foi olhando pra agenda que ele percebeu quanto tempo passou, tempo contado nas páginas antigas de velhas agendas empilhadas em um canto do quarto. Quando eu fui ficar tão sozinho? Foi o que ele pensou quando pegou a agenda e não viu nenhum número para o qual ligar, nenhum além do delivery da pizzaria de sempre. Não estava com fome.

Continuou sentado, olhando pra agenda, a nova agenda, um novo ano, nenhuma novidade. Quando minha vida virou essa rotina? Foi o que ele se perguntou. Pegou uma agenda velha no meio das agendas velhas e a abriu, na primeira página, antes mesmo da página dos dados pessoais, havia um recado sem assinatura. Ele leu e sentiu uma onda de calor aquecer todo o seu corpo. Quando foi que perdi meu calor? Foi o que ele quis saber, mas logo esqueceu essa pergunta e quis saber outra resposta: Quem escreveu esse recado que me fez sentir como antigamente?

Horas se passaram e já não havia espaço no chão, só haviam agendas espalhadas, abertas e um homem no meio delas, aberto. Não sabia se chorava, se ria, não sabia nem o que sentia e se sentia. Quem eram aquelas pessoas das quais os aniversários ele nunca esquecia? Onde elas foram parar? Como ele foi parar sozinho no chão da sala, com mais de 40 anos e só o número do delivery da pizzaria na agenda?

Olhou o relógio, eram três da manhã. Tenho que trabalhar amanhã, foi o que ele pensou. Acho que estou com fome, foi o que ele disse ao pegar o telefone e discar o único número que sabia de cor. A pizza chegou em menos de 30 minutos, ele pagou, comeu, passou pela sala e foi dormir. O tempo não pára, não posso parar, foi o que ele repetiu até cair no sono.

Seis da manhã, o despertador tocou. Levantou, escovou os dentes, vestiu o terno, pegou a pasta, caminhou por cima das agendas espalhadas pelo chão. Não tropeçou nenhuma vez.

Trip

2 jan

Na viagem de ida pegamos um ônibus que parava em todo e qualquer lugar que pudesse subir mais gente, esquecemos de perguntar se o ônibus ia direto e ficou claro que não depois da terceira parada. Gastamos mais de três horas e meia numa viagem que dura, mais ou menos, duas horas. E nem na janelinha eu fui! Fiquei com a poltrona do corredor evitando o tempo todo que, com aquele vai-e-vem de gente, esbarrassem no meu travesseiro (e lendo Death Note, né).

No primeiro dia no hotel ficamos até quase quatro da manhã conversando entre CDs de MPB e cervejas e cigarros. Fomos dormir meio sem sono e conversamos mais um pouco ainda até o sono chegar e reinar o silêncio, finalmente. Acordamos e já era o último dia do ano. Mais pessoas chegaram, pessoas que coloriam o ambiente, com certeza.

As meninas de vestido, os rapazes bem vestidos, jantamos macarrão, nada de ceia de Réveillon, somos maiores que isso (aham). Mensagens desejando “feliz ano novo” devidamente mandadas, algumas respostas recebidas e opa! Já eram onze horas. Saímos de casa, nos amontoamos no carro, buscamos a praça, levamos nossos champanhes e, enquanto corríamos subindo a rua em direção à praça, começaram os fogos. Não sabíamos se já era meia-noite ou não, mas começamos a nos abraçar ali mesmo. Chegamos na praça e descobrimos que só então era meia-noite, tudo bem, outra sessão de abraços. Fotos, champanhe, uma volta na praça e os meninos encontram conhecidos. Voltamos pro hotel, sentamos no quarto e escrevemos num papel o que queremos pra 2009, me senti quilos mais leve quando terminei, não sei porque, mas me senti.

Primeiro dia do novo ano começou tranqüilo, acordei com minha amiga me dando um beijo na testa de despedida, estava indo pra uma cidade ali perto almoçar com a família. Fomos almoçar no centro da cidade e voltamos pro hotel, um pouco de piscina e eu e minha amiga resolvemos dar uma volta sozinhas pela praça. Saímos do hotel e ela me pergunta “você sabe chegar lá?”, não sabíamos, mas achamos. Andamos um pouco, um pouco (muito) de sorvete da Claerrô, um pouco de conversa na praça, um pouco de bar e voltamos ao hotel. Mais piscina, dessa vez com muita música e muita companhia.

Dia hoje começou com muita preguiça, dia de ir embora. Ligamos na rodoviária, olhamos os horário, arrumamos as malas, nos apertamos no carro mais uma última vez e fomos deixadas na rodoviária. A viagem de volta teve algumas paradas, mas nada de mais se comparada à de ida. Tínhamos um vizinho de poltrona com um celular cheio de músicas sertanejas, agüentamos por um tempo, mas depois começamos a competir com as nossas músicas. A volta foi mais rápida, não sei se pelo motorista louco que corria tanto que fazia o ônibus chacoalhar, se porque estávamos lendo ou se porque era a volta mesmo.

Meu ano começou muito bem, nunca fui de esperar muito de um ano só por ele ser “ano novo”, mas sinto que esse ano vai ser ótimo. Agradeço às águas quentes de Caldas Novas, aos meus colegas de quarto e de piscina privada, às minhas amigas-companheiras Taís e Marina, ao Fernando que ofereceu hospedagem pra nós, ao Mário Prata pelo livro “Cem Melhores Crônicas” que tem feito meus dias e me roubado várias risadas e ao ano de 2009, claro, que me dará dias e mais dias pra acostumar (e aproveitar) com esse tempo louco que não pára.