Todas as cores

15 nov

Esse texto não é fruto de uma empolgação instantânea, é algo que vem comigo há tanto tempo que nem sei como nunca escrevi nada a respeito. Não sei exatamente como começar, então uso o trecho de uma música do meu eterno amor platônico Cazuza como introdução: “Tô cansado de tanta caretice, tanta babaquice, desta eterna falta do que falar”.

Esse semestre tive algumas aulas extras que tiveram a participação de um professor que considero excelente, excelente por ser professor de Geografia (matéria de Humanas!) e não ser só mais um esquerdista-frustrado querendo formar pseudo-revolucionários no Ensino Médio. Em uma dessas aulas, sobre a identidade do povo Latino-americano, ele disse que a geração de hoje é mais conservadora que a geração passada. E sabe como ele defendeu essa idéia? Simples: perguntou como os jovens do auditório reagiriam se o avô resolvesse, em um almoço de família, assumir que é homossexual. Engraçado, né? Os “jovens”, que se consideram tão moderninhos na hora de discutir com os pais e chamá-los de caretas, se chocaram com a simples pergunta. “Meu avô? Gay?”, sim, seu avô gay. E aí?

Não sei desde quando, não sei como, não sei de onde, mas desde que me entendo por gente eu não consigo julgar uma pessoa pelo companheiro que ela tem. Acho que sou assim desde sempre, já que sou filha de um arquiteto e minha mãe tinha amigos gays na época em que nasci (depois ela virou crente e se afastou deles, mas isso é história pra mais tarde ou pra outro post).

Essa semana fiquei sabendo que Claudinha Leitte disse em entrevista que adora gays, mas não quer que seu filho o seja. Hoje fiquei sabendo que o marido dela ainda disse que “Deus me livre (do filho ser gay). Ele será bem criado”. Ontem li uma notícia em que o rapper Trick Trick (who?) não quer que homossexuais comprem seu novo CD. Como assim, gente? Vamos por partes, porque a indignação é muita.

1º) No mundo artístico, Claudinha, se você não convive bem com homossexualismo (ou pelo menos não finge bem) você não vai conhecer quase ninguém. Convenhamos. E dizer que “adora gays”, tá bom então, seus fãs gays acreditaram tanto que estão fazendo boicote a seus shows. Acho que o que a mocinha quis dizer é que prefere a “calma” de ter um filho hétero-garanhão, o tal macho alfa, que sai agarrando a mulherada nas micaretas. Isso sim é filho, hein?!

2º) Quando você é uma pessoa pública, ou pelo menos é relacionado a tal, deve tentar moderar ou pelo menos pensar antes de abrir a boca, certo? Errado. Pelo menos para o tal marido da Cláudia Leitte que fez a declaração mais estúpida que vi em tempos! Conheço gays e conheço héteros e não é a criação “errada” que faz a pessoa ser homossexual, isso posso garantir. Criar errado é criar o filho sem lhe dar liberdade para ser o que realmente é, você pode prender a pessoa numa cadeia de conceitos prévios errados e fechar seus olhos pra um mundo cheio de diferenças, mas não pode tirar dela o que é sua essência. E como li em um blog: “fui bem criada: Não escuto axé music!”.

3º) Rapper preconceituoso, nossa, que novidade! O tal do Trick Trick ainda disse “Eu não quero dinheiro de gay de jeito nenhum. Eu não gosto de homossexuais. Leve-os para outro lugar”. Ok então, quero ver se um neonazista vier dizer que não gosta de negros e quiser te levar pra um campo de concentração (just like in the old days).

Hoje assisti a um filme chamado Shelter. Adorei a trilha sonora, adorei os ambientes em que se passa a história, mas acima de tudo adorei a trama. Pode ser que algumas pessoas não gostariam, que nem tenho amigos que não assistem Brokeback Mountain porque é “filme de viado”, mas eu adorei. Gosto muito de romances, sim! Ainda mais se a cena final (SPOILER!) se passa na praia e estão brincando com um cachorro.

[SPOILER]

No filme, um rapaz se apaixona pelo irmão mais velho de seu melhor amigo e começa a ter um caso com ele. O caso não é só algo carnal, eles começam a se gostar de verdade. O rapaz mora com a irmã e com o sobrinho, mas como sua irmã não age como mãe, é ele quem cuida do sobrinho quase sempre. Quando a irmã fica sabendo do caso que ele está vivendo, ela diz que espera que ele esteja apenas passando por uma fase de confusão. Ele termina o caso e o, até então, companheiro dele diz que ele é um covarde (uma das melhores cenas do filme).

[/SPOILER]

O filme continua, mas foi aí que a pergunta começou a martelar na minha cabeça: “Por que abrir mão de sua felicidade só pelo que os outros podem pensar?”.  Eu sei, não sou eu quem vai sofrer preconceito, quem vai ter que encarar a família e ter de ouvir os comentários dos mais velhos (que nem sempre são os mais preconceituosos, como deixei claro anteriormente). Mas será que vale a pena abrir mão de si mesmo pela opinião alheia?

Eu digo normalmente que sou uma “revolucionária de sofá”, porque tenho muitas idéias contrárias às comuns, mas não faço nada a respeito. Pois bem, pelo direito da pessoa ser quem é, eu faço algo! Eu me levanto do sofá, discuto com os de idéias arcaicas, participaria de caminhadas, de protestos, sou (e quero ser mais ainda) a verdadeira revolucionária. Eu digo sim a todas as cores do amor, afinal o mundo cinza não tem graça. Estou aqui pra quem quiser discutir e este com certeza não será o único post que farei sobre tal assunto.

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6 Respostas to “Todas as cores”

  1. ândre novembro 15, 2008 às 2:46 am #

    entrar no seu blog e não ver uma das suas narrativas é realmente algo que eu não esperava.
    infelizmente, às pessoas mascaram demais os seus preconceitos e quando a primeira oportunidade lhes aparece à frente, eles recuam para o seu conservadorismo clichê que a moral cristã-judaico impõe sobre eles.
    É tão fácil esperar atitudes como a da claudinha leitte das pessoas. porque não podem deixar de serem previsíveis só por um momento? O meu lado cético tem mil razões para explicar os porquês dos gêneros sexuais e dos preconceitos sexuais, mas porque discutir isso quando o assunto é o tão almejado amor? que seja azul, cor-de-rosa ou de todas as cores, mas seja algo que cative pela essência, não pela aparência. apaixonar-se pelo eu verdadeiro, não um molde do que a pessoa é. apaizonar-se não por um homem ou uma mulher, mas por aquilo que aquela pessoa lhe trasmite.
    “Por que abrir mão de sua felicidade só pelo que os outros podem pensar?”
    Um dia espero poder fazer essa pergunta a alguém sem parecer tão hipócrita.

  2. Helen Fernanda novembro 15, 2008 às 8:07 am #

    Muito bom seu texto. É bom quando você sai do sofá para atualizar o blog. Narrativa muito instigante. =)

    Quanto à minha opinião sobre homossexualidade, prefiro não comentar porque está embasada em dogmas religiosos que não vêm ao caso.

    Mas sou contra a hipocrisia. Quem gosta de axé music hoje no Brasil? Gay e “piriguete”! Muitos rapazes heterossexuais fingem gostar para “pegar” as “piriguetes”, mas a maioria odeia.

    Preconceito todos nós temos. Vira problema quando a gente conta pra todo mundo. Complicada a situação dela…

  3. MaxReinert novembro 15, 2008 às 1:04 pm #

    Olá!!
    Muito legal seu texto…
    Muitas pessoas fazem confusão entre a prática homossexual com a aceitação da diversidade sexual… acho que é aí que a porca torce o rabo!
    Ninguém precisa ser homossexual para entender que essa prática existe e não vai mudar em nada a vida dos que não há praticam.
    Seu vizinho ser gay não vai transformar você em gay e nem seus filhos.
    Aceitar a diversidade traria muito mais tranquilidade par o mundo do que se imagina.
    Abraço

    PS: Também tenho um blog onde escrevo ficção… http://www.pequenoinventario.blogspot.com

  4. Pedro Vítor novembro 15, 2008 às 3:41 pm #

    Sabe quando se lê algo e apenas se vai balançando a cabeça, concordando com cada frase, e ‘se achando’ em cada idéia? Semana passada ouvi muita coisa sobre o assunto, vindo dos meus pais. “Isso é anormal!”, “Você não pode achar isso normal, você tem que se distanciar disso!”, “Você deixaria toda a família triste caso você admita ser homossexual”. Bem, é algo pra se abstrair né? Assim como você, eu nasci achando normal. Como já diz o meu “eterno amor platônico” Ana Carolina: “Só existem dois sexos, e a gente ainda vai escolher?”. Independentemente de padrões e sociedade, sou da opinião que tem que se estar com quem te faz bem. E os outros? São ‘outros’, ponto. E como contra-argumento você escreveu o que eu respondi: “Será que realmente vale a pena ceder sua felicidade pela felicidade dos outros?” Tornar teu mundo cinza pra colorir o dos outros? Acho que nem os pais, nem os mais ortodoxos, gostam de fazer papel de lápis de colorir.

  5. Taís novembro 16, 2008 às 11:05 pm #

    Acho sim muita babaquice quem prefere viver na escuridão e fingir que o diferente não existe mas, defendo a liberdade de pensamento seja ele pré-histórico, ou não. Se eu tenho o direito de considerar idiotas os que têm esse tipo de idéia, eles têm o mesmo direito que eu.
    O problema, porém, está na exteriorização desse pensamento. Enquanto o preconceito está no campo das idéias, tudo bem. Mas, ao sair da mente fechada deles, eis o problema. Defendo a liberdade, desde que essa não interfira na liberdade do outro, desde que esta não constranja o outro e, principalmente, desde que esta não implique num sofrimento do outro.
    Foi exatamente aí que o marido da Cláudia Leitte errou. Não foi ao pensar, foi ao dizer. Imagino o quanto os fãs dela(e até os não fãs gays) se decepcionaram e se incomodaram com a declaração.
    Já que defendo a liberdade de pensamento, eis o que penso sobre: Erro na criação são aqueles que não sabem amar(seja o próximo, ou a eles mesmo), são aqueles que geram e concebem o medo do diferente, são aqueles que preferem a homogeneidade mas, excluem qualquer outra palavra que tem o prefixo “homo” como base.
    Que somos todos iguais não há do que duvidar, mas crer nisso é a dificuldade. Questionar e condenar o que dizem é fácil mas, levantar pra mudar um pensamento herdado de gerações e gerações é o grande e dolorido problema.

  6. Júlia novembro 17, 2008 às 8:28 pm #

    É bem o que a Taís disse, acho. Uma manifestação da lei do Sartre, de que o inferno são os outros.

    Tem muita gente que é favorável à causa do homossexualismo, mas esquece que eles não são filhos de chocadeira, nem extraterrestres; entretanto a questão da ofensa por parte desse comentário vai muito além disso, um) porque há milhões de maridos-da-Claudia-Milk espalhados pelo por aí, proliferando opiniões bem menos regadas de bom senso quanto essa e as pessoas, geralmente, não se revoltam, e dois) que não é o fato de ter saído da boca de uma cantora de axé que qualifica a bestialidade do argumento, mas a insatisfação em saber que ainda existe gente assim no mundo.

    Esse comentário infeliz não faz da família Leitte potenciais neonazistas e, sinceramente, não acho que eles mereçam ser excomungados por isso, até porque seria uma tremenda injustiça com as pessoas que fazem coisas muito piores contra homossexuais e continuam livres, sem sofrer nenhum tipo de repreensão ou questionamento.

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