Passos

11 nov

Só ela sabia a quantidade de vezes em que pensou em dizer algo, mesmo que indiretamente, mesmo que só pra dizer “eu disse”. Mas era muito mais fácil seguir com tudo pra si mesma. Ela que costumava dizer tudo, que não conseguia sequer disfarçar uma simples mudança de humor, ela que era feita de palavras e se orgulhava disso.

Resolveu sair de casa, ficar presa sentada à frente do computador não adiantaria nada. As ruas estavam vazias e, mesmo que não estivessem, ela estaria só no meio de tantos olhares estranhos. Era óbvio que ela sabia pra onde suas pernas a estavam levando e mais óbvio ainda era o motivo pelo qual ela estava tremendo. Seus olhos se enchiam de lágrima, mas engolia o choro e em nenhum momento as lágrimas rolaram por seu rosto. Tanta coisa passava por sua cabeça, parou, pensou em voltar, mas já estava tão próxima, já não fazia sentido olhar pra trás.

Estava a uma rua, uma rua a separava, uma rua poderia mudar tanto. Ela se sentou e observou o outro lado da rua, aquela portaria tão familiar, os degraus que já subiu em outras ocasiões, as lembranças e de novo as lágrimas, contidas. Se levantou, antes que o medo a prendesse do lado de cá. Atravessou antes que pudesse pensar no que estava fazendo e, com a voz trêmula, perguntou ao porteiro.

Agora ela voltava para casa mais leve, havia provado pra si mesma que conseguia ir além do cotidiano, cruzar a linha do habitual era como se livrar de antigas amarras. Ele não estava lá, tinha saído e talvez tenha sido melhor assim mesmo. Se ela quisesse, agora sabia que poderia atravessar a rua de novo.

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2 Respostas to “Passos”

  1. Madina novembro 12, 2008 às 12:06 am #

    Talvez tenha sido melhor mesmo…tem coisas q as vzs o destino ajuda!
    Isso ja aconteceu comigo pra ser sincera,respirei aliviada depois qd não aconteceu o que eu queria…no fundo eu esperava q n acontecesse,era so a necessidade de por na cabeça “Pronto,fiz..n deu certo,agora bola pra frente” num é?
    Enfim,eu aceito um café com chatilly,por favor!
    :*

  2. Zen novembro 12, 2008 às 1:38 am #

    E depois não pensa “e agora?” Como se aquele momento fosse apenas uma pausa do que espera acontecer, mesmo não querendo que aconteça?
    Não fica o “e se?” na cabeça, relutando em ressurgir e te levar novamente a atravessar a rua? Eu acredito que a dúvida nos move, mas as certezas que nos matém mais ancorados ainda… para melhor ou para pior.
    Sei lá
    E eu sou mais de capuccino ^^
    =*

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