Arquivo | novembro, 2008

Todas as cores

15 nov

Esse texto não é fruto de uma empolgação instantânea, é algo que vem comigo há tanto tempo que nem sei como nunca escrevi nada a respeito. Não sei exatamente como começar, então uso o trecho de uma música do meu eterno amor platônico Cazuza como introdução: “Tô cansado de tanta caretice, tanta babaquice, desta eterna falta do que falar”.

Esse semestre tive algumas aulas extras que tiveram a participação de um professor que considero excelente, excelente por ser professor de Geografia (matéria de Humanas!) e não ser só mais um esquerdista-frustrado querendo formar pseudo-revolucionários no Ensino Médio. Em uma dessas aulas, sobre a identidade do povo Latino-americano, ele disse que a geração de hoje é mais conservadora que a geração passada. E sabe como ele defendeu essa idéia? Simples: perguntou como os jovens do auditório reagiriam se o avô resolvesse, em um almoço de família, assumir que é homossexual. Engraçado, né? Os “jovens”, que se consideram tão moderninhos na hora de discutir com os pais e chamá-los de caretas, se chocaram com a simples pergunta. “Meu avô? Gay?”, sim, seu avô gay. E aí?

Não sei desde quando, não sei como, não sei de onde, mas desde que me entendo por gente eu não consigo julgar uma pessoa pelo companheiro que ela tem. Acho que sou assim desde sempre, já que sou filha de um arquiteto e minha mãe tinha amigos gays na época em que nasci (depois ela virou crente e se afastou deles, mas isso é história pra mais tarde ou pra outro post).

Essa semana fiquei sabendo que Claudinha Leitte disse em entrevista que adora gays, mas não quer que seu filho o seja. Hoje fiquei sabendo que o marido dela ainda disse que “Deus me livre (do filho ser gay). Ele será bem criado”. Ontem li uma notícia em que o rapper Trick Trick (who?) não quer que homossexuais comprem seu novo CD. Como assim, gente? Vamos por partes, porque a indignação é muita.

1º) No mundo artístico, Claudinha, se você não convive bem com homossexualismo (ou pelo menos não finge bem) você não vai conhecer quase ninguém. Convenhamos. E dizer que “adora gays”, tá bom então, seus fãs gays acreditaram tanto que estão fazendo boicote a seus shows. Acho que o que a mocinha quis dizer é que prefere a “calma” de ter um filho hétero-garanhão, o tal macho alfa, que sai agarrando a mulherada nas micaretas. Isso sim é filho, hein?!

2º) Quando você é uma pessoa pública, ou pelo menos é relacionado a tal, deve tentar moderar ou pelo menos pensar antes de abrir a boca, certo? Errado. Pelo menos para o tal marido da Cláudia Leitte que fez a declaração mais estúpida que vi em tempos! Conheço gays e conheço héteros e não é a criação “errada” que faz a pessoa ser homossexual, isso posso garantir. Criar errado é criar o filho sem lhe dar liberdade para ser o que realmente é, você pode prender a pessoa numa cadeia de conceitos prévios errados e fechar seus olhos pra um mundo cheio de diferenças, mas não pode tirar dela o que é sua essência. E como li em um blog: “fui bem criada: Não escuto axé music!”.

3º) Rapper preconceituoso, nossa, que novidade! O tal do Trick Trick ainda disse “Eu não quero dinheiro de gay de jeito nenhum. Eu não gosto de homossexuais. Leve-os para outro lugar”. Ok então, quero ver se um neonazista vier dizer que não gosta de negros e quiser te levar pra um campo de concentração (just like in the old days).

Hoje assisti a um filme chamado Shelter. Adorei a trilha sonora, adorei os ambientes em que se passa a história, mas acima de tudo adorei a trama. Pode ser que algumas pessoas não gostariam, que nem tenho amigos que não assistem Brokeback Mountain porque é “filme de viado”, mas eu adorei. Gosto muito de romances, sim! Ainda mais se a cena final (SPOILER!) se passa na praia e estão brincando com um cachorro.

[SPOILER]

No filme, um rapaz se apaixona pelo irmão mais velho de seu melhor amigo e começa a ter um caso com ele. O caso não é só algo carnal, eles começam a se gostar de verdade. O rapaz mora com a irmã e com o sobrinho, mas como sua irmã não age como mãe, é ele quem cuida do sobrinho quase sempre. Quando a irmã fica sabendo do caso que ele está vivendo, ela diz que espera que ele esteja apenas passando por uma fase de confusão. Ele termina o caso e o, até então, companheiro dele diz que ele é um covarde (uma das melhores cenas do filme).

[/SPOILER]

O filme continua, mas foi aí que a pergunta começou a martelar na minha cabeça: “Por que abrir mão de sua felicidade só pelo que os outros podem pensar?”.  Eu sei, não sou eu quem vai sofrer preconceito, quem vai ter que encarar a família e ter de ouvir os comentários dos mais velhos (que nem sempre são os mais preconceituosos, como deixei claro anteriormente). Mas será que vale a pena abrir mão de si mesmo pela opinião alheia?

Eu digo normalmente que sou uma “revolucionária de sofá”, porque tenho muitas idéias contrárias às comuns, mas não faço nada a respeito. Pois bem, pelo direito da pessoa ser quem é, eu faço algo! Eu me levanto do sofá, discuto com os de idéias arcaicas, participaria de caminhadas, de protestos, sou (e quero ser mais ainda) a verdadeira revolucionária. Eu digo sim a todas as cores do amor, afinal o mundo cinza não tem graça. Estou aqui pra quem quiser discutir e este com certeza não será o único post que farei sobre tal assunto.

Passos

11 nov

Só ela sabia a quantidade de vezes em que pensou em dizer algo, mesmo que indiretamente, mesmo que só pra dizer “eu disse”. Mas era muito mais fácil seguir com tudo pra si mesma. Ela que costumava dizer tudo, que não conseguia sequer disfarçar uma simples mudança de humor, ela que era feita de palavras e se orgulhava disso.

Resolveu sair de casa, ficar presa sentada à frente do computador não adiantaria nada. As ruas estavam vazias e, mesmo que não estivessem, ela estaria só no meio de tantos olhares estranhos. Era óbvio que ela sabia pra onde suas pernas a estavam levando e mais óbvio ainda era o motivo pelo qual ela estava tremendo. Seus olhos se enchiam de lágrima, mas engolia o choro e em nenhum momento as lágrimas rolaram por seu rosto. Tanta coisa passava por sua cabeça, parou, pensou em voltar, mas já estava tão próxima, já não fazia sentido olhar pra trás.

Estava a uma rua, uma rua a separava, uma rua poderia mudar tanto. Ela se sentou e observou o outro lado da rua, aquela portaria tão familiar, os degraus que já subiu em outras ocasiões, as lembranças e de novo as lágrimas, contidas. Se levantou, antes que o medo a prendesse do lado de cá. Atravessou antes que pudesse pensar no que estava fazendo e, com a voz trêmula, perguntou ao porteiro.

Agora ela voltava para casa mais leve, havia provado pra si mesma que conseguia ir além do cotidiano, cruzar a linha do habitual era como se livrar de antigas amarras. Ele não estava lá, tinha saído e talvez tenha sido melhor assim mesmo. Se ela quisesse, agora sabia que poderia atravessar a rua de novo.