Arquivo | junho, 2008

Carta a alguém-ninguém

26 jun

Querida,

Lembre-se de não guardar tanto ódio assim, o mundo não está lhe apontando armas e você continua com a mania de querer se proteger de viver. Pode ser clichê, mas as cicatrizes que vêm dos tombos são a história que contará para os que conhecer no futuro, o que dirá sobre seu passado se continua construindo uma muros para se esconder? Acha mesmo que já sofreu demais, que tua auto-estima precisa sempre se manter nesse limite baixo que escolheu e nem vê a verdade: és jovem.
Veja as pequenas coisas com os olhos de criança que ainda não lhe foram roubados pelo dia-a-dia, pela correria. Sinta o vento, a chuva, o sol! Não se esconda por trás dessa janela, não se esconda por trás de seus falsos sentimentos tão previsíveis, não se esconda por trás da covardia que insiste em manter. Uso palavras duras para quebrar o vidro de seu drama-criado, drama digno de novelas mexicanas.
Por que espera tanto para dizer? E por que, mesmo dizendo, usa de ambigüidades e de inclarezas? Pra que tanto medo de viver? És jovem, és jovem! Admita que a culpa da sua não-vida não é do cansaço ou das obrigações recém-impostas, admita que mantém os mesmos problemas porque é mais fácil já saber as respostas, admita que tem medo de enfrentar o que é novo, admita que se acovardou porque espera sempre que os outros saibam tanto de você quanto você mesma.
Uso da minha intimidade, e de tudo que sei sobre o que se passa por trás das palavras que não consegue dizer, para falar diretamente à dor adolescente que mantém dentro de ti. Sei da tua sede pelos sentimentos reais e de sua incessante busca por estes, sei de todas as vezes que inventou e de todas as vezes que cruzou com olhares que lhe pareciam os certos, sei de todas as vezes que quebrou seu próprio coração só para não dizer que não o usa. Sei de teus deslizes e do lado leopardo que guarda para poucos, sei das palavras doces que é capaz de dizer e das sinceridades duras que exerce às vezes, conheço tuas manias e teus sorrisos, teus abraços e tuas lágrimas. Conheço teu interior e o admiro, conheço teu exterior e o admiro.
Pare diante do espelho e se veja, feche os olhos e se veja, essa é você. Perceba que não é assim tão necessário o outro para ser feliz, tente deixar o “destino” agir, largue essa caneta, pare de planejar tudo.

Anúncios

Citações: Simone de Beauvoir

20 jun

Não se pode escrever nada com indiferença.

Todas as vitórias ocultam uma abdicação.

Era-me mais fácil imaginar um mundo sem criador do que um criador carregado com todas as contradições do mundo.

O homem é livre; mas ele encontra a lei na sua própria liberdade.

Seja qual for o país, capitalista ou socialista, o homem foi em todo o lado arrasado pela tecnologia, alienado do seu próprio trabalho, feito prisioneiro, forçado a um estado de estupidez.

Parecia-me que a Terra não seria habitável se não houvesse alguém que eu pudesse admirar.

Veja só, Simone de Beauvoir é mais do que a moça que se relacionou com Sartre! Ok, exagerei. Mas sempre ao ouvir sobre ela, penso “a amante de Sartre!” ou “O Segundo Sexo” e ao pesquisar vi que ela tem boas idéias e foi bem mais do que só a moça do louco-por-liberdade do Sartre. Ela foi filósofa existencialista, assim como o homem dela, e não escreveu apenas O Segundo Sexo. Achei interessante (e pesquisarei mais). Afinal, “por trás de um grande homem sempre há uma grande mulher”.

PS: Post superficial, eu sei. Quando tiver tempo e inspiração, ou seja lá o que me mantém escrevendo, eu faço um post decente. Juro.

Cold and broken hallelujah

13 jun

Faz tempo que não tenho nada em que acreditar e penso que faz parte do ser humano procurar por algo em que possa acreditar.
Quando nasci minha mãe era espírita, quando completei 2 anos ela começou a freqüentar uma igreja evangélica e eu com ela. Durante a infância tudo parece ser lindo, a escolinha dominical é muito legal e as pessoas todas parecem muito felizes, tudo parece ser uma união incrível. Quando fiz 7 anos minha mãe engravidou novamente e, mais uma vez, ela não estava casada. O pastor dessa tal igreja conversou com ela e a convenceu a “se afastar” da igreja, como se ela fosse uma vergonha para aquele lugar, uma má influência. Acho incrível como é uma contradição imensa isso tudo, alguns pastores ensinam fundamentos que muitas das vezes nem seguem, são grandes mentirosos, verdadeiros atores!
Na época não me senti “revoltada” com o que aconteceu, eu tinha idade pra entender, mas não cheguei a raciocinar sobre o que havia acontecido. Depois de ter sido convidada a se retirar, minha mãe passou por inúmeras igrejas e eu com ela. Se firmou em algumas por algum tempo, mas logo encontrava um defeito e resolvia mudar de novo. Ouvi sermões de todos os tipos, sermões calmos e quase de auto-ajuda, sermões em busca de “ofertantes”, sermões sobre o final do mundo que se aproxima, sobre como tomar conta de “célula”, como prosperar, arrumar marido, se livrar de mágoas; ouvi muitos “amém, irmãos?” e muitas vozes respondendo “amém” sem nem mesmo pensar sobre o que ouviam.
Aos 13 anos resolvi parar de seguir minha mãe, resolvi criar meu próprio caminho, me mudei para a casa do meu pai e parei de freqüentar igrejas, sou o que eles chamam de “desviada”. Desviei de quê? Do caminho que eles criaram e eu teria que seguir. As pessoas que eram próximas de mim dentro da igreja, se afastaram como se eu tivesse algum tipo de doença e pudesse infectá-los só por continuarmos amigos. Os poucos que ainda falam comigo de vez em quando ou perguntam de mim para a minha mãe querem sempre me levar de volta para o caminho deles, me fazer sentar naquele banco e ouvir alguém me dizer coisas que já ouvi inúmeras vezes.
Acredito que exista um ser maior, algo que corresponda ao “Deus”, mas o meu “ser maior” não é esse deus que nunca falha e pré-determina nossos caminhos. O meu ser maior é um ser com poderes a mais que nós, meros mortais. Acredito que possa ser mais de um, é mais fácil que seja assim já que há tanta gente e tantas peculiaridades nesse mundo. Acredito?

Voltaire disse “Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”, Machado de Assis disse “Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento”, Nietzsche disse “Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo”, Mário Quintana disse “Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo”. Eu digo que concordo com todos: Algo maior existe, talvez não esse “Deus”, mas existe algo, ou “algos”. O homem se perde e acaba se agarrando à religião, alguns até se esquecem de que mais importante do que “fazer a obra” é pra quem ele está fazendo. Conheço pessoas que, mesmo sem religião definida, são muito mais centradas e bem resolvidas do que esses viciados em igreja. Talvez o melhor a fazer é se afastar de tantas regras e se permitir pensar e acreditar ao mesmo tempo, fé cega é fé alienada.

Literal

13 jun

Eu sou palavras, palavras muitas vezes ocultadas, guardadas. Palavras muitas vezes jogadas sem pensar uma única vez, saem com força de tiro de canhão e podem machucar como tal. Essa sou eu, palavras. Sou a soma daqueles que amo, é só olhar para os meus lados e entenderá, são sorrisos e abraços. Sou, portanto, palavras e amor.
Pode soar engraçado (talvez cafona) ouvir alguém do “alto” de seus recém-completos dezessete anos falar de amor, mas posso afirmar que nasci assim, parte amor parte palavras. Daí o amor às palavras e as – melosas – palavras de amor. Por isso, quando aprendi a falar não pude parar mais, por isso também errei algumas vezes e foi com estes erros que aprendi: palavras não devem ser desperdiçadas com besteiras. Sou aprendizado ao longo de meus anos, anos estes recheados de histórias que hoje pertencem ao passado, mas há pouco ainda pertenciam a mim.
Não sou grande enigma, por trás do meu olhar não existe grande segredo e não lhe devorarei se não me decifrar. Sou o que falo, o que sinto e principalmente o que penso. Apesar de ser mais sentir do que pensar, penso muito mais que sinto e sinto muito junto do que penso. Não sei balancear, erro nas doses, exagero, mas sou una.
Começo assim algo que não pertence a mim, mas às palavras.