Fim da última aula do último dia de aulas da semana, estava guardando os materiais e segurando pra não jogar tudo pro alto e sair correndo dali. Foi assim que ouvi: “Eu assumo. Assumo que sou de Humanas por preguiça, porque não sei mais nada. Se soubesse isso aí (aponta para o quadro onde se vê uns gráficos, umas contas e muita Física), se soubesse… Não iria querer Jornalismo!”. Me surpreendi com o que ouvi saindo de minha própria boca.

Boa aluna fui só até a 7ª série, foi aí que a coisa desandou, fui apresentada à vida fora de casa e tudo brilhava mais do que livros e estudo. Daí pra frente é que a coisa desandou mesmo. Recuperação pela primeira vez na 7ª série and I’m not proud of that! Matemática, claro. Se ainda no Ensino Fundamental eu me ferrava, imagine no belo Ensino Médio.

Humanas são História, Geografia e Língua Portuguesa, basicamente. São ou não as matérias mais fáceis do mundo escolar? Mesmo os que têm calculadora científica acoplada ao cérebro são maisoumeninhos em Humanas, já os de Humanas… Sempre tem o aluno bocó que passa o Ensino Médio inteiro dizendo “sou de Humanas, pra que vou precisar disso na minha vida?” nas aulas das outras áreas. Esse aluno bocoió vai chegar no vestibular e acertar muito em Humanas e levar ferro em Biológicas e Exatas. Viu pra que precisa disso na sua vida, querido futuro aluno de cursinho? Precisa pra digievoluir de aluno de Ensino Médio pra calouro universitário. Ok, alright, “o sistema de ensino no Brasil é uma merda! Tá tudo errado, temos que mudar, fazer a revolução!”, blá blá blá… Só digo uma coisa: enquanto você reclama todos os dias da inutilidade das outras áreas e põe a culpa no sistema, seu concorrente está estudando. E não é só seu coleguinha de turma que está reclamando com você que é seu concorrente não, querido, há muitos outros e são eles que vão tirar as suas vagas. Isso vale pra qualquer aluno que subestima as outras áreas, não só os de Humanas. Falo diretamente para os de Humanas porque os conheço intimamente, digamos.

Penso em Jornalismo desde a 8ª série e já há algum tempo venho questionando essa minha certeza tão absoluta. De 2005 pra cá, pensei também em fazer Moda, Arquitetura e Direito. Direito foi só um surto de “poxa, todo mundo que é de Humanas quer Direito, por que não?”, mas foi algo bem rápido, já estou bem. Moda foi levado a sério por um tempinho, cheguei a recortar propagandas da Capricho de universidades que ofereciam o curso e a ter um caderninho onde eu colava imagens de peças de roupas e acesórios que gostava e, vez ou outra, arriscava uns rabiscos. Arquitetura, eis o que me deixou em dúvida algumas vezes durante o ano passado, eis o que me fez questionar minha bela e límpida fé na certeza da escolha pelo curso de Jornalismo. Desde pequerrucha convivo com o mundo dos arquitetos, já que sou filha de um. Tudo bem, pode fazer piadinha sobre a sexualidade dos arquitetos, conheço algumas boas também. Minha avó paterna tentou muitas vezes me convencer a fazer Arquitetura e tinha bons argumentos: 1) Sendo meu pai arquiteto, teria eu toda uma facilidade em algumas coisas que poderia precisar; 2) A UFG abriu o curso de Arquitetura ano passado, o que não me faria ir a Anápolis todo dia se optasse pela UEG; 3) Pra eu conseguir meu lugar ao sol no mundo do Jornalismo sem conhecer ninguém da área seria extremamente difícil. E não é que desde pequenina eu gostava do que via o papai fazendo? Mesmo depois de crescida – e de ter percebido que as olheiras do papai vinham do tanto que arquiteto é sinônimo de workaholic –, ainda simpatizava.

Eis que ontem, depois de desabafar litros pelo msn com uma amiga, vem a proposta: “Vamos fazer assim: você presta pra Arquitetura na UnB no meio do ano e eu presto pra Desenho Industrial, daí fazemos aula de desenho até lá. O que acha?”. Bom, acho algumas coisas… Acho que desenho mal, mas sempre quis aprender a desenhar. Acho que as aulas de desenho podem ocupar muito do meu tempo “livre” (também conhecido como “tempo em que você tem que fazer alguma coisa se não a idéia de que você não está fazendo nada e está no cursinho te enlouquece”), o que pode não ser bom. Acho uma boa idéia. Acho arriscado mudar de planos agora. Acho que não consigo decidir nada sozinha e preciso expôr minha confusão mental gritando no colégio e tendo uma semi-crise de choro e riso através de um post no blog.

Então, será que devo levar a sério o que minha boca falou há algumas horas? Se sim, será que devo mudar de curso? Se sim, será que não é tarde, “em cima da hora”? Justifique a sua resposta de maneira clara e concisa. ;)

Durante a ditadura militar no Brasil, a mídia serviu de máquina de propaganda favorável ao modelo governamental vigente. Daí surgiram os questionamentos quanto à qualidade do que se vê na televisão. É fato que, após 64, muitos começaram a renegar a mídia televisiva brasileira e a criticar veemente as telenovelas, qualificando-as como alienantes.

É certo que autores de novelas têm em mãos um imenso poder, já que têm a oportunidade de entrar em quase todas as casas brasileiras abordando os mais diversos assuntos. Com a história da evolução das telenovelas é possível vermos também tabus serem superados e a mudança comportamental dos brasileiros ao longo dos anos. Como exemplos, podemos citar a maior inserção de atores negros, a presença de casais homossexuais e a abordagem de assuntos relacionados a preconceitos. A abordagem de tais assuntos em rede nacional mostra ser possível a construção de um novo cenário social, de uma sociedade mais consciente de suas diferenças e cada vez mais tolerante, mesmo que isso seja uma mudança lenta e gradativa.

A maior crítica quanto aos folhetins é serem mais usados como forma de diversão do que como algo informativo-crítico, daí dizer que alienam o povo. Segundo pesquisas de audiência, as novelas mais vistas são as da Rede Globo e elas obedecem a uma ordem lógica: a novela das 18 horas é, geralmente, uma novela de época que não precisa de muita atenção para ser compreendida; a novela das 19 horas é separada da novela das 18 pelo jornal local – esse horário é estratégico para esse jornal, já que é o horário em que a maioria das pessoas chega em casa após o expediente – e sua trama é, normalmente, recheada de situações cômicas, como se fossem feitas para relaxar o trabalhador após um longo dia de trabalho; a novela mais vista (sendo também o horário mais caro e com maior retorno para publicidade) é a das 20 horas (que faz tempo começa só às 21 horas), que vem logo após o Jornal Nacional – também colocado em um horário estratégico, já que enquanto o povo espera a novela, vê as notícias do Brasil e do mundo (sob apenas um olhar, mas isso é outro assunto) – e é a novela com a trama mais complicada, é normalmente nesta que acontecem as situações mais críticas ou disseminação de opiniões. O homem procura sempre estabelecer um ciclo ou se adequar a um, essa rotina da Globo se infiltra na cabeça das pessoas fazendo com que elas programem suas vidas de acordo com esses horários. Grande parte da população vive “para” a televisão e forma a sua personalidade – em grande parte – do que assiste, são produtos da mídia.

As telenovelas brasileiras não são só mocinhas ou vilãs, não são obras de arte ou empobrecimento cultural, são uma forma de falar com grande parte da população ao mesmo tempo. Pode ser que há tempos mantenham a mesma fórmula e pouco mudem de uma para outra, mas é certo que têm um grande poder. O povo é influenciado pelo que vê na TV, já que é mais fácil assimilar opiniões prontas do que pensar e criar a sua própria, aí poderíamos criticar as novelas, mas poderíamos também criticar os telejornais e até mesmo a mídia escrita. O problema não está na forma como a novela trata o povo, está em como a mídia como um todo os trata.

PS: Tempo demais sem postar e agonia de ver isso aqui ficando cheio de teias de aranha me levaram a postar essa redação, a primeira que fiz esse ano – e única que fiz bem – pro cursinho.

PS2: Tive duas reclamações sobre o “abandono” do blog e ambas vieram da mesma pessoa… Beijo, Joss! Dedico esse post a você.

O Meio Termo

Fevereiro 2, 2009

Essa vida de férias, sem obrigações e afins, é deveras enfadonha. Mas não há mais do que reclamar, já que estou a poucas horas do fim de minhas lindas e tediosas férias e do início de uma nova era: o Cursinho.

Esperar ponto de corte cair é se iludir, ainda mais esse ano em que a UFG adotou cotas e ENEM. Não passei na UnB, não passei na UEG e fiz quase 10 pontos abaixo do ponto de corte pra Jornalismo na UFG.

Você pode  fazer o ideal que é terminar o 3º ano e entrar em alguma universidade, mas pode acontecer também de não conseguir passar em nenhum vestibular e ficar preso. E agora? Você terminou o Ensino Médio mas é inútil não conseguiu entrar na faculdade! Deve desistir de estudar e começar a vender milho cozido nas praias do Nordeste? Nada disso, cursinho é a solução. Cursinho é o purgatório, enquanto Ensino Médio seria a vida e Universidade o céu (isso aos olhos de quem ainda não entrou na faculdade, claro). Cursinho é a sala de espera, cursinho é a vírgula, cursinho é… Cursinho é o lugar dos que não estudaram o bastante enquanto podiam ou dos que querem passar nos vestibulares mais difíceis e têm que continuar estudando feito loucos, mesmo tendo terminado o Ensino Médio.

Agradeço ao Mario Prata por ter escrito o livro que fez de minhas férias algo menos inútil e peço paciência e persistência ao Universo (por falta de ter a quem pedir). Aos meus parceiros que farão cursinho esse ano, desejo ótimos dias de estudo e não sorte. Aos que passaram nos vestibulares que queriam, desejo ótimos dias nos bares e juizo pra não perderem aulas demais ou se perderem achando que universidade é sinônimo de farra. See you soon, guys! ;)

Chá Novo

Janeiro 22, 2009

Se tem algo em que grande maioria do mundo concorda é que vai emagrecer no próximo ano, essa é a promessa mais feita pelos seres humanos desde o primórdio dos tempos. Na verdade a promessa começa com a proximidade do verão, todo mundo querendo exibir o corpinho esbelto por aí nos dias quentes, mas a maioria das pessoas acaba é engordando nas férias… Daí chega Janeiro, trazendo um novo ano e a mulherada – maioria dos prometedores de plantão é fêmea, tem nem o que discutir – começa a pensar no carnaval, as academias lotam.

Ryot IRAS

Dia 31 de Dezembro de 2009, estávamos eu e duas amigas sentadas na cama, com papel e caneta nas mãos, escrevendo as resoluções de ano novo e dentre as minhas estava “ser mais saudável”. Dois dias depois cheguei de viagem e já fui contando pra mamãe a minha mais nova invenção: voltar à academia.

Meu histórico de atividades físicas é, digamos assim, um fiasco. Sempre odiei exercício físico, sempre! Quando era pequena não gostava de pular corda nem elástico, eu era ruim, não queria treinar e tinha vergonha. Isso se aplica também à bicicleta, nunca aprendi a andar sem rodinhas. Gostava de natação, fiz durante muito tempo, mas como mudava muito de casa, acabei cansando de trocar sempre de academia também. Além do que eu tenho, desde pequerrucha, problema no ouvido. Não pode entrar água que pronto, é um deus nos acuda. Com 7 anos comecei a fazer ballet, fiz até os 13 e, enquanto isso, fiz também um pouco de pilates, jazz e sapateado. Eu realmente gostava/gosto de ballet, mas meu pai me convenceu a parar de fazer, era época de vacas magras e ele disse “você não vai seguir carreira mesmo, né?”. Eu era a gordinha da turma, mas mesmo assim fui pra Santos fazer curso de ballet e jazz, tá meobein? Mas concordei e acabei parando. Na quinta série, tentei vôlei, adorava ir pra quadra do colégio a pé, adorava andar pelo Centro da cidade, mas eu era ruim na atividade em si. Na sétima, comecei a frequentar uma academia, mas pouco tempo depois meu pai descobriu que eu estava faltando pra conversar com uma amiga na porta. Na oitava, tentei handball, mas quando percebi que mais uma vez era ruim, passei a faltar as aulas pra dar conselhos amorosos pra um casal de amigos (?) e depois comecei a fazer teatro. No Ensino Médio fiz tudo – yoga, leitura de clássicos, xadrez, teatro, etc – que servisse de nota pra Educação Física, menos exercício em si.

Pois bem, me matriculei na academia segunda-feira: musculação três vezes por semana e jump duas vezes por semana. Como boa sedentária que sou, faltei a aula de jump na segunda porque estava com preguiça queria ver Quarentena (o pior filme desde O Apanhador de Sonhos). Terça fui, mas chegando à porta da academia vi que do outro lado da rua tinha surgido um barzinho improvisado, o que eu penso? Que deveria estar bebendo (mãe e pai, eu não bebo) e comendo espetinho ao invés de estar indo fazer exercício físico? Também, mas não só isso. Pensei “pronto, dia desses um bêbado resolve me seguir!”. Sim, mania de perseguição deveria ser meu nome. Nada aconteceu e no outro dia lá estava eu, pronta pra sessão de tortura aula de Jump. Conheci professora e colegas, todas muito simpáticas, me senti bem. Daí me pedem pra subir numa balança e tirar minhas medidas, beleza, joga na cara o porque de eu estar aqui. Não bastasse isso, faltando uns 10 minutos pra acabar a aula, comecei a passar mal. Eu, tremendo, olhei em volta e vi a galera suando e tudo, mas todo mundo inteiro, menos eu: a mais nova da turma. Não bastasse estar tremendo, minha visão começou a escurecer. No final da aula, já estava bem e participei da melhor parte: receber massagem. Hoje estava tudo muito bom, tudo muito bem, até a hora de voltar pra casa. Estava subindo a viela quando percebi que vinha um homem atrás de mim, continuei andando, ele continuou andando, parei pra ver se vinha algum carro, olhei pra trás, ele ainda estava lá, voltei a andar, ele também, comecei a andar mais rápido, ele continuou andando, virei na minha rua, ele também, cheguei na porta de casa, cumprimentei o porteiro, fechei o portão e olhei pra trás, ele passou. Quando a porta do elevador fechou, me peguei pensando “porra! agora ele sabe onde eu moro, se um dia quiser me atacar, sabe que tem que ser antes da minha rua”. Eu sei, a probabilidade de o cara estar realmente me seguindo é pequena, mas diz isso pra minha mania de perseguição, diz! Só digo uma coisa: isso de fazer academia ainda vai me render muita história, certeza. E, tomara, uns quilinhos a menos.

Conversando com uma amiga, enquanto olhávamos guias de viagem e livros de algumnúmero de coisas pra fazer antes de morrer, eu falei “Quer saber como vou descobrir que o cara é o cara da minha vida? Quando estivermos no carro e eu disser ‘não volta pra casa, vamos pra numseionde!’ e ele empolgar também”. Ela concordou, até terminamos a frase juntas. Pouco antes, vimos um livro que citava Jack Kerouac na capa e não sei como posso estar viva até hoje sem ter lido On The Road, livro em que Jack relata sua viagem de 7 anos pela rota 66 com seu amigo Neal (personagem principal do livro sob o nome Dean Moriarty).

Há algum tempo (é provável que ela não lembre, já que memória não é seu forte), conversando com essa mesma amiga, ela me disse que queria um apartamento pequeno fixo, mas queria viajar muito. Até então eu nunca tinha pensado nisso, mas pouco tempo depois me deparei com a comunidade Não Patrimonialistas no Orkut, cuja descrição é “Eu quero um pequeno apartamento e viajar pelo mundo! Você também? Então entra aí!”, li e me senti intimada a me juntar a essas pessoas. Pouco tempo depois, descobri outra comunidade, a Queria uma vida “road-movie” e, mais uma vez, me identifiquei. É exatamente isso o que quero, exatamente. Quero um apartamento pequeno pra ter pra onde voltar, mas quero uma mochila, uma câmera e um lugar pra anotar tudo o que eu descobrir durante as viagens que fizer.

Hoje eu estava desanimada, ando cansada, mesmo estando de férias e sem motivos para cansaço. Minha amiga reclamou, queria a Laura livin’ la vida loca, implorou pra sairmos de noite, mas no fim ela desanimou também. A moça é estudante de Arqueologia e já faz um tempo que vem insistindo e procurando companhia pra viajar pela América do Sul e Central, mochilão mesmo, sem frescura, mesmo não sabendo espanhol. Moça cheia de grandes sonhos, de grandes dúvidas, cheia de vontade de conhecer o mundo, conhecer as civilizações antigas, conhecer outras culturas, outras histórias… E no final, voltar pro seu pequeno apartamento fixo em algum lugar, com uma mochila e várias lembranças. De alguma forma, na conversa supracitada, ela despertou em mim algo que acabou se transformando em um sonho e hoje, mais uma vez com ela, me lembrei desse sonho e não pretendo mais esquecer. Ou desistir. Mas para todos que compartilham desse sonho, quero acrescentar o que Chris McCandless aprendeu com a sua viagem into the wild: “A felicidade só é real quando compartilhada”.

Ermo

Janeiro 5, 2009

Olhando pra agenda. Foi olhando pra agenda que ele percebeu quanto tempo passou, tempo contado nas páginas antigas de velhas agendas empilhadas em um canto do quarto. Quando eu fui ficar tão sozinho? Foi o que ele pensou quando pegou a agenda e não viu nenhum número para o qual ligar, nenhum além do delivery da pizzaria de sempre. Não estava com fome.

Continuou sentado, olhando pra agenda, a nova agenda, um novo ano, nenhuma novidade. Quando minha vida virou essa rotina? Foi o que ele se perguntou. Pegou uma agenda velha no meio das agendas velhas e a abriu, na primeira página, antes mesmo da página dos dados pessoais, havia um recado sem assinatura. Ele leu e sentiu uma onda de calor aquecer todo o seu corpo. Quando foi que perdi meu calor? Foi o que ele quis saber, mas logo esqueceu essa pergunta e quis saber outra resposta: Quem escreveu esse recado que me fez sentir como antigamente?

Horas se passaram e já não havia espaço no chão, só haviam agendas espalhadas, abertas e um homem no meio delas, aberto. Não sabia se chorava, se ria, não sabia nem o que sentia e se sentia. Quem eram aquelas pessoas das quais os aniversários ele nunca esquecia? Onde elas foram parar? Como ele foi parar sozinho no chão da sala, com mais de 40 anos e só o número do delivery da pizzaria na agenda?

Olhou o relógio, eram três da manhã. Tenho que trabalhar amanhã, foi o que ele pensou. Acho que estou com fome, foi o que ele disse ao pegar o telefone e discar o único número que sabia de cor. A pizza chegou em menos de 30 minutos, ele pagou, comeu, passou pela sala e foi dormir. O tempo não pára, não posso parar, foi o que ele repetiu até cair no sono.

Seis da manhã, o despertador tocou. Levantou, escovou os dentes, vestiu o terno, pegou a pasta, caminhou por cima das agendas espalhadas pelo chão. Não tropeçou nenhuma vez.

Trip

Janeiro 2, 2009

Na viagem de ida pegamos um ônibus que parava em todo e qualquer lugar que pudesse subir mais gente, esquecemos de perguntar se o ônibus ia direto e ficou claro que não depois da terceira parada. Gastamos mais de três horas e meia numa viagem que dura, mais ou menos, duas horas. E nem na janelinha eu fui! Fiquei com a poltrona do corredor evitando o tempo todo que, com aquele vai-e-vem de gente, esbarrassem no meu travesseiro (e lendo Death Note, né).

No primeiro dia no hotel ficamos até quase quatro da manhã conversando entre CDs de MPB e cervejas e cigarros. Fomos dormir meio sem sono e conversamos mais um pouco ainda até o sono chegar e reinar o silêncio, finalmente. Acordamos e já era o último dia do ano. Mais pessoas chegaram, pessoas que coloriam o ambiente, com certeza.

As meninas de vestido, os rapazes bem vestidos, jantamos macarrão, nada de ceia de Réveillon, somos maiores que isso (aham). Mensagens desejando “feliz ano novo” devidamente mandadas, algumas respostas recebidas e opa! Já eram onze horas. Saímos de casa, nos amontoamos no carro, buscamos a praça, levamos nossos champanhes e, enquanto corríamos subindo a rua em direção à praça, começaram os fogos. Não sabíamos se já era meia-noite ou não, mas começamos a nos abraçar ali mesmo. Chegamos na praça e descobrimos que só então era meia-noite, tudo bem, outra sessão de abraços. Fotos, champanhe, uma volta na praça e os meninos encontram conhecidos. Voltamos pro hotel, sentamos no quarto e escrevemos num papel o que queremos pra 2009, me senti quilos mais leve quando terminei, não sei porque, mas me senti.

Primeiro dia do novo ano começou tranqüilo, acordei com minha amiga me dando um beijo na testa de despedida, estava indo pra uma cidade ali perto almoçar com a família. Fomos almoçar no centro da cidade e voltamos pro hotel, um pouco de piscina e eu e minha amiga resolvemos dar uma volta sozinhas pela praça. Saímos do hotel e ela me pergunta “você sabe chegar lá?”, não sabíamos, mas achamos. Andamos um pouco, um pouco (muito) de sorvete da Claerrô, um pouco de conversa na praça, um pouco de bar e voltamos ao hotel. Mais piscina, dessa vez com muita música e muita companhia.

Dia hoje começou com muita preguiça, dia de ir embora. Ligamos na rodoviária, olhamos os horário, arrumamos as malas, nos apertamos no carro mais uma última vez e fomos deixadas na rodoviária. A viagem de volta teve algumas paradas, mas nada de mais se comparada à de ida. Tínhamos um vizinho de poltrona com um celular cheio de músicas sertanejas, agüentamos por um tempo, mas depois começamos a competir com as nossas músicas. A volta foi mais rápida, não sei se pelo motorista louco que corria tanto que fazia o ônibus chacoalhar, se porque estávamos lendo ou se porque era a volta mesmo.

Meu ano começou muito bem, nunca fui de esperar muito de um ano só por ele ser “ano novo”, mas sinto que esse ano vai ser ótimo. Agradeço às águas quentes de Caldas Novas, aos meus colegas de quarto e de piscina privada, às minhas amigas-companheiras Taís e Marina, ao Fernando que ofereceu hospedagem pra nós, ao Mário Prata pelo livro “Cem Melhores Crônicas” que tem feito meus dias e me roubado várias risadas e ao ano de 2009, claro, que me dará dias e mais dias pra acostumar (e aproveitar) com esse tempo louco que não pára.

O Velho e o Moço

Dezembro 23, 2008

Amanhã já é dia 24 de Dezembro, Natal está aí batendo na porta. Logo atrás vem o tão clamado, deificado e esperado Ano Novo. Nunca entendi muito bem isso de as pessoas ficarem desejando que o ano acabe logo, pra mim nunca fez sentido algum desejar que o ano atual acabe e que o próximo comece sendo que o próximo é só mais um ano e, daqui a 12 meses, as pessoas estarão mais uma vez pedindo pro ano acabar logo.

2008 foi um ano complicado, como o previsto, já que era meu último ano no Ensino Médio e, portanto, o ano mais torturante. É engraçado lembrar que há 12 meses eu estava aliviada por ter entrado de férias, mas morria de medo do monstro que parecia o 3º ano. É engraçado porque agora que vim, vi e venci (?), posso dizer que foi ruim mesmo, com certeza o pior ano de toda a minha imensa vida de dezessete anos, mas não sentiria tão bem marcado o fim dessa fase se tivesse pulado esse ano. Pensei em dizer que não tem comparação entre a Laura que entrou no Ensino Médio e a que terminou, mas tem sim e é essa comparação que me faz ver que tudo o que aconteceu foi necessário e sentirei imensa saudade, mesmo do 3º ano. Ok, de algumas partes de 2008, não necessariamente do 3º ano.

Foi chegando o final do ano, o fim das provas, o tempo voando, a 1ª fase e… Meu deus, cadê as férias? Passei na 1ª fase, peguei firme nas duas primeiras semanas da maratona pra 2ª fase e relaxei na última, fiz as provas da 2ª fase, não me saí tão bem quanto queria, mas espero que tenha sido bem o suficiente. Ou não. Não voltei pro colégio pra primeira parte da maratona pra UnB, porque meu corpo estava moído e precisava de descanso, e aí eu me vi na situação de deificadora do futuro e me deixei dizer alguns “tomara que esse ano termine logo”, porque o fim desse ano não é só o fim de mais um ano, é o fim de um ano marcante e que eu quero que fique logo pra trás. Os “ares do novo ano” vão me fazer muito melhor do que me fizeram nos anos anteriores, já que agora eu espero por isso.

Só quero um feliz final de ano para mim e para todos, deificadores ou não de anos futuros, e não vou esquecer de curtir um bocado esse restinho de 2008. E que venha 2009 porque, independente de resultados, estou aí, aberta a novas aventuras! :)

PS: O título do texto foi mesmo inspirado pela música homônima de Los Hermanos, mas o conteúdo não tem nada a ver.

É de sonho

Dezembro 3, 2008

Como toda (o) terceiranista, ainda mais em final de ano, estou em fase de decisões. Decisões sérias demais pra um ser inconstante de 17 anos tomar, mas isso é assunto batido e imutável e não é sobre isso que quero falar hoje.

Passei para a 2ª fase do Vestibular da UFG, ou seja, 50% do caminho já está andado e agora podem acontecer duas coisas: 1) Eu passar na 2ª fase e conseguir uma vaga no curso de Comunicação Social – Jornalismo na Federal de Goiás, o que não é ruim, ou 2) Eu não passar na 2ª fase e parar aqui mesmo, no meio do caminho, o que também não é ruim.

No 1º e 2º ano eu não quis nem pensar em vestibular, quis mais me ferrar no colégio dar uma de Ferris Bueller e curtir a vida adoidado. Cheguei no 3º ano com muito medo e nenhuma noção do que viria pela frente, enquanto todos tinham já no começo do ano o curso decidido e pensavam em quais univerdades prestar, eu não sabia nem o que significavam as siglas. Ainda no começo do ano uma amiga me disse que queria prestar na UnB e se mudar para Brasília (lógico) e eu, que não tinha objetivo algum e não via nenhum motivo para me apegar à Goiânia, simpatizei pelo sonho dela. De repente Brasília se tornou a cidade mais bonita do mundo e a UnB a melhor universidade. Juntei o útil – meu pai disse que o mais distante que eu poderia ir seria Brasília – ao agradável – a UnB é uma das melhores universidades do país para muitos cursos, incluindo o meu – e pronto! Meu mais novo sonho de infância: cursar Comunicação Social – Jornalismo na UnB.

Agora, final do ano, Ensino Médio já terminado (thank God!), dois vestibulares feitos (UFG e UEG) e um em a ser feito em Janeiro (UnB), a dúvida voltou BEM forte: UFG ou UnB? Ignoremos a UEG, nem saiu o resultado ainda, mas meu interesse nela não é nada perto do interesse nas outras duas. Com o meu nome na lista de aprovados na 1ª fase da Federal pude ver as coisas de outra maneira, afinal… E se eu passar na 2ª fase? Eu sei, simplesmente tenho certeza, que não passo na UnB agora em Janeiro. Sei que pra passar na UnB terei que estudar, pelo menos, mais seis meses até o vestibular do meio do ano e mesmo assim pode ser que eu não consiga. Por mim, só poderia haver as seguintes opções pra esse final: 1) Eu não passo na 2ª fase da UFG nem na UnB, me obrigando a fazer cursinho de qualquer forma, ou 2) Eu passo na UnB (nesse caso não importa UFG). Mas, infelizmente, eu não mando nas opções e existe uma terceira: 3) Eu passo na UFG, não passo na UnB e me sinto imensamente tentada a desistir do meu sonho e ficar com a vaga já garantida aqui.

Minha força de vontade nunca foi lá essas coisas e não é qualquer um que consegue dizer ‘não’ a uma certeza porque sonha com algo mais difícil. Não gosto de tomar decisões, nunca gostei, e as decisões estão se tornando cada vez mais difíceis… Mas chega de suposições por hoje, por enquanto fico feliz se me desejarem sorte tanto para o vestibular da UnB em Janeiro, quanto para a 2ª fase da UFG que é daqui uma semana. Wish me luck! :)

Todas as cores

Novembro 15, 2008

Esse texto não é fruto de uma empolgação instantânea, é algo que vem comigo há tanto tempo que nem sei como nunca escrevi nada a respeito. Não sei exatamente como começar, então uso o trecho de uma música do meu eterno amor platônico Cazuza como introdução: “Tô cansado de tanta caretice, tanta babaquice, desta eterna falta do que falar”.

Esse semestre tive algumas aulas extras que tiveram a participação de um professor que considero excelente, excelente por ser professor de Geografia (matéria de Humanas!) e não ser só mais um esquerdista-frustrado querendo formar pseudo-revolucionários no Ensino Médio. Em uma dessas aulas, sobre a identidade do povo Latino-americano, ele disse que a geração de hoje é mais conservadora que a geração passada. E sabe como ele defendeu essa idéia? Simples: perguntou como os jovens do auditório reagiriam se o avô resolvesse, em um almoço de família, assumir que é homossexual. Engraçado, né? Os “jovens”, que se consideram tão moderninhos na hora de discutir com os pais e chamá-los de caretas, se chocaram com a simples pergunta. “Meu avô? Gay?”, sim, seu avô gay. E aí?

Não sei desde quando, não sei como, não sei de onde, mas desde que me entendo por gente eu não consigo julgar uma pessoa pelo companheiro que ela tem. Acho que sou assim desde sempre, já que sou filha de um arquiteto e minha mãe tinha amigos gays na época em que nasci (depois ela virou crente e se afastou deles, mas isso é história pra mais tarde ou pra outro post).

Essa semana fiquei sabendo que Claudinha Leitte disse em entrevista que adora gays, mas não quer que seu filho o seja. Hoje fiquei sabendo que o marido dela ainda disse que “Deus me livre (do filho ser gay). Ele será bem criado”. Ontem li uma notícia em que o rapper Trick Trick (who?) não quer que homossexuais comprem seu novo CD. Como assim, gente? Vamos por partes, porque a indignação é muita.

1º) No mundo artístico, Claudinha, se você não convive bem com homossexualismo (ou pelo menos não finge bem) você não vai conhecer quase ninguém. Convenhamos. E dizer que “adora gays”, tá bom então, seus fãs gays acreditaram tanto que estão fazendo boicote a seus shows. Acho que o que a mocinha quis dizer é que prefere a “calma” de ter um filho hétero-garanhão, o tal macho alfa, que sai agarrando a mulherada nas micaretas. Isso sim é filho, hein?!

2º) Quando você é uma pessoa pública, ou pelo menos é relacionado a tal, deve tentar moderar ou pelo menos pensar antes de abrir a boca, certo? Errado. Pelo menos para o tal marido da Cláudia Leitte que fez a declaração mais estúpida que vi em tempos! Conheço gays e conheço héteros e não é a criação “errada” que faz a pessoa ser homossexual, isso posso garantir. Criar errado é criar o filho sem lhe dar liberdade para ser o que realmente é, você pode prender a pessoa numa cadeia de conceitos prévios errados e fechar seus olhos pra um mundo cheio de diferenças, mas não pode tirar dela o que é sua essência. E como li em um blog: “fui bem criada: Não escuto axé music!”.

3º) Rapper preconceituoso, nossa, que novidade! O tal do Trick Trick ainda disse “Eu não quero dinheiro de gay de jeito nenhum. Eu não gosto de homossexuais. Leve-os para outro lugar”. Ok então, quero ver se um neonazista vier dizer que não gosta de negros e quiser te levar pra um campo de concentração (just like in the old days).

Hoje assisti a um filme chamado Shelter. Adorei a trilha sonora, adorei os ambientes em que se passa a história, mas acima de tudo adorei a trama. Pode ser que algumas pessoas não gostariam, que nem tenho amigos que não assistem Brokeback Mountain porque é “filme de viado”, mas eu adorei. Gosto muito de romances, sim! Ainda mais se a cena final (SPOILER!) se passa na praia e estão brincando com um cachorro.

[SPOILER]

No filme, um rapaz se apaixona pelo irmão mais velho de seu melhor amigo e começa a ter um caso com ele. O caso não é só algo carnal, eles começam a se gostar de verdade. O rapaz mora com a irmã e com o sobrinho, mas como sua irmã não age como mãe, é ele quem cuida do sobrinho quase sempre. Quando a irmã fica sabendo do caso que ele está vivendo, ela diz que espera que ele esteja apenas passando por uma fase de confusão. Ele termina o caso e o, até então, companheiro dele diz que ele é um covarde (uma das melhores cenas do filme).

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O filme continua, mas foi aí que a pergunta começou a martelar na minha cabeça: “Por que abrir mão de sua felicidade só pelo que os outros podem pensar?”.  Eu sei, não sou eu quem vai sofrer preconceito, quem vai ter que encarar a família e ter de ouvir os comentários dos mais velhos (que nem sempre são os mais preconceituosos, como deixei claro anteriormente). Mas será que vale a pena abrir mão de si mesmo pela opinião alheia?

Eu digo normalmente que sou uma “revolucionária de sofá”, porque tenho muitas idéias contrárias às comuns, mas não faço nada a respeito. Pois bem, pelo direito da pessoa ser quem é, eu faço algo! Eu me levanto do sofá, discuto com os de idéias arcaicas, participaria de caminhadas, de protestos, sou (e quero ser mais ainda) a verdadeira revolucionária. Eu digo sim a todas as cores do amor, afinal o mundo cinza não tem graça. Estou aqui pra quem quiser discutir e este com certeza não será o único post que farei sobre tal assunto.