Mulher
Maio 14, 2009
Um dia inteiro, cheio. Parecia estar no piloto automático. Quanto tempo passou dando as respostas esperadas a tudo o que lhe era perguntado?
Abriu o box, girou a torneira, deixou a água cair em seus ombros. Molhou seus longos cabelos, seios, ventre, pés. Molharam suas bochechas as lágrimas que caíram no mesmo ritmo dos pingos do chuveiro.
Sempre invejou as meninas aventureiras das histórias que ouvia falar, aquelas que saíam de casa aos quatorze anos em busca de seus sonhos. Viveu com a avó até os dezenove, quando passou no vestibular e mudou de estado.
Pegou o sabonete, esfregou o rosto. Odiava molhar o rosto, sentia como se fosse afogar e odiava aqueles segundos que era obrigada a passar de olhos fechados.
Durante todo o curso foi a aluna exemplar. Vivia para os estudos e se teve amigos enquanto isso, foram um ou dois. Era sozinha. Depois que a avó morreu, o telefone nem tocava mais.
Pegou o xampu e esfregou o couro cabeludo. Seus cabelos eram longos como sua avó dizia que teriam de ser, assim como suas roupas. Tudo era comedido, regulado.
Passou o condicionador em toda a extensão do cabelo, essa era sua parte favorita. Penteou os fios loiros de raiz a ponta.
Já há um ano gostava de um rapaz do trabalho, mas não podia dizer. Era presa em si mesma, encadeada. Já não agüentava mais chorar no banho. Sozinha.
A água escorria por todo o seu corpo. Pegou o sabonete e esfregou na barriga com força, com raiva. Chorou mais. Queria ser livre, decidira ser livre.
Deu um nó no cabelo, lavou a nuca, lavou as costas, lavou o pescoço. Ensaboou as coxas, olhos fechados. Sentiu.
O ritmo dos pingos e o de seus gemidos se misturavam, um uníssono. Um grito baixo de independência.
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Abril 23, 2009
Queria mesmo conversar com alguém, dizer que reli o e-mail que mandei pra alguém agora desimportante, mas voltei no tempo. Não, na verdade queria discutir algo importante, algo que ouvi hoje na rádio no caminho pro colégio, talvez dizer sobre o tom irônico na voz do jornalista ao encerrar a entrevista, talvez sobre a matéria sobre escassez de água que estou lendo.
Passa mais uma tarde e fico esperando dizer algo, resolver tudo. “Não quero, não dá” e fim. “Manda pro conserto, foda-se as fotos, só quero que funcione” e pronto. Tagarelice é só efeito colateral da falta do que dizer, no final penso só “I’m just saying…” e nada, não estou dizendo nada.
Peço férias e reclamo dos feriados. Pra que tanto feriado? Pra cortar o ânimo, dar aquele gostinho de “tenho tempo” e acabar do nada, numa terça-feira. Férias em breve, mas antes outra prova importante. Poderia ser “A” prova importante, mas será só mais uma, eu sei. Quanto um ser humano consegue enrolar? Eu digo: três meses e quatro pastas cheias de folhas vazias.
Agora é a vez das promessas: nunca mais releio e-mail pra alguém “agora desimportante”, discutirei coisas importantes e opinarei, direi o que tenho a dizer, não direi o que não tenho a dizer, não contarei os dias pros dias de folga, não reclamarei das oportunidades de ter mais tempo, não esperarei uma quinta pasta encher. Não prometerei nada que não possa cumprir. E descumprirei sempre o que puder, eu sei.
Da diferença que palavras podem fazer
Abril 13, 2009
Às vezes reclamamos por ter que ouvir certas coisas. Às vezes, por termos que esperar emails, telefonemas. Às vezes, por não sabermos falar sobre tal assunto ou até mesmo por faltar assunto. Muitas vezes o que faz toda a diferença é a palavra. O poder da palavra (e de sua ausência) é incrível. Daí minha paixão por elas em textos, filmes (movie quotes), músicas, etc.
Cada vez mais vejo pessoas se declararem procrastinadoras. Será este o novo mal estar da civilização contemporânea? Tantopralertantoprafazertantoprapensartantotudodeumavezagoratantotanto! E tudo deixado pra depois, é “tanto” demais pra tempo de menos. Ou preguiça demais. Ou preguiça demais e tempo de menos.
De vez em quando, consigo ser o cúmulo da preguiça. Soube disso ao abrir o Reader e ver que abri mão das inscrições em “Atualidades Notícias” e “Cultura”. Isso aconteceu aos poucos, cancelando as inscrições de jornal por jornal, mas acabei assinando só feeds de blogs. Agora, não assino feed de nenhum blog além dos que já tenho, sei que vou acabar enrolando e acumulando e talvez até mesmo desistindo. Sei disso porque passei um bom tempo (meses?) sem ler o que aparecia de novo em um blog que tanto gosto, o Até aqui tudo bem.
Jusqu’ici tout va bien (ou Até aqui tudo bem) chama atenção de cara pelo nome. Mais ainda com a “explicação” do nome que aparece na descrição do blog: “É a história de um homem que cai de um prédio. Enquanto cai, ele repete para se acalmar: até aqui tá tudo bem, até aqui tá tudo bem, até aqui…”. Tem como não ficar, no mínimo, intrigado? É lendo os posts que descobrimos que o blog é feito por textos dos quais fazem parte desde relatos do cotidiano, que nos acordam para as pequenas coisas da vida, até opiniões pertinentes sobre assuntos mais sérios. Isso tudo transmitindo uma leveza e bem-estar incríveis!
Não lembro como nem quando encontrei o blog, mas sou grata por tê-lo encontrado. Aline é a pessoa por trás das palavras e eis aí uma pessoa que sabe usá-las. Daí o início deste post, hoje estava lendo alguns textos que estava enrolando para ler já há algum tempo e, ao ler um texto do “Até aqui tudo bem”, lembrei o porque de gostar tanto do blog: o poder que as palavras lá escritas têm de nos envolver.
É aí que tenho que dizer que podem enrolar o tanto que conseguirem, deixar os feeds acumulando e os emails a responder. Mas saibam, procrastinadores queridos, que palavras podem mudar seu dia, quiçá sua vida. E é por isso que recomendo acompanharem os textos no Até aqui tudo bem e também os 140 caracteres no twitter.
Estátua de Sal
Março 22, 2009
Tantos passos já andados e agora ouço algo que me faz parar e pensar em olhar pra trás. Como poderia ter fé em algo que nunca me deu motivos pra acreditar? Tive sonhos e meses e nada.
Os tolos pensam demais, planejam, ensaiam o que dizer e acabam nunca realizando. Eu, mesmo tola, disse. Disse várias vezes. Disse tantas vezes. Por meias palavras, talvez, mas são as meias palavras que me constroem inteira. Quem assistia entendia, por que você não entenderia? Entendia. Cansa saber que entendia. Cansa não entender. Cansa ser sua sem ser. De cansaço em cansaço, abri mão. Por meio de palavras, abri mão. Meias palavras de uma desistência inteira. Decisão tomada, segui.
Ah, prefiro continuar a andar e ouvir o som só dos meus passos a virar sal.
A (quase) certeza do incerto
Março 21, 2009
Fim da última aula do último dia de aulas da semana, estava guardando os materiais e segurando pra não jogar tudo pro alto e sair correndo dali. Foi assim que ouvi: “Eu assumo. Assumo que sou de Humanas por preguiça, porque não sei mais nada. Se soubesse isso aí (aponta para o quadro onde se vê uns gráficos, umas contas e muita Física), se soubesse… Não iria querer Jornalismo!”. Me surpreendi com o que ouvi saindo de minha própria boca.
Boa aluna fui só até a 7ª série, foi aí que a coisa desandou, fui apresentada à vida fora de casa e tudo brilhava mais do que livros e estudo. Daí pra frente é que a coisa desandou mesmo. Recuperação pela primeira vez na 7ª série and I’m not proud of that! Matemática, claro. Se ainda no Ensino Fundamental eu me ferrava, imagine no belo Ensino Médio.
Humanas são História, Geografia e Língua Portuguesa, basicamente. São ou não as matérias mais fáceis do mundo escolar? Mesmo os que têm calculadora científica acoplada ao cérebro são maisoumeninhos em Humanas, já os de Humanas… Sempre tem o aluno bocó que passa o Ensino Médio inteiro dizendo “sou de Humanas, pra que vou precisar disso na minha vida?” nas aulas das outras áreas. Esse aluno bocoió vai chegar no vestibular e acertar muito em Humanas e levar ferro em Biológicas e Exatas. Viu pra que precisa disso na sua vida, querido futuro aluno de cursinho? Precisa pra digievoluir de aluno de Ensino Médio pra calouro universitário. Ok, alright, “o sistema de ensino no Brasil é uma merda! Tá tudo errado, temos que mudar, fazer a revolução!”, blá blá blá… Só digo uma coisa: enquanto você reclama todos os dias da inutilidade das outras áreas e põe a culpa no sistema, seu concorrente está estudando. E não é só seu coleguinha de turma que está reclamando com você que é seu concorrente não, querido, há muitos outros e são eles que vão tirar as suas vagas. Isso vale pra qualquer aluno que subestima as outras áreas, não só os de Humanas. Falo diretamente para os de Humanas porque os conheço intimamente, digamos.
Penso em Jornalismo desde a 8ª série e já há algum tempo venho questionando essa minha certeza tão absoluta. De 2005 pra cá, pensei também em fazer Moda, Arquitetura e Direito. Direito foi só um surto de “poxa, todo mundo que é de Humanas quer Direito, por que não?”, mas foi algo bem rápido, já estou bem. Moda foi levado a sério por um tempinho, cheguei a recortar propagandas da Capricho de universidades que ofereciam o curso e a ter um caderninho onde eu colava imagens de peças de roupas e acesórios que gostava e, vez ou outra, arriscava uns rabiscos. Arquitetura, eis o que me deixou em dúvida algumas vezes durante o ano passado, eis o que me fez questionar minha bela e límpida fé na certeza da escolha pelo curso de Jornalismo. Desde pequerrucha convivo com o mundo dos arquitetos, já que sou filha de um. Tudo bem, pode fazer piadinha sobre a sexualidade dos arquitetos, conheço algumas boas também. Minha avó paterna tentou muitas vezes me convencer a fazer Arquitetura e tinha bons argumentos: 1) Sendo meu pai arquiteto, teria eu toda uma facilidade em algumas coisas que poderia precisar; 2) A UFG abriu o curso de Arquitetura ano passado, o que não me faria ir a Anápolis todo dia se optasse pela UEG; 3) Pra eu conseguir meu lugar ao sol no mundo do Jornalismo sem conhecer ninguém da área seria extremamente difícil. E não é que desde pequenina eu gostava do que via o papai fazendo? Mesmo depois de crescida – e de ter percebido que as olheiras do papai vinham do tanto que arquiteto é sinônimo de workaholic –, ainda simpatizava.
Eis que ontem, depois de desabafar litros pelo msn com uma amiga, vem a proposta: “Vamos fazer assim: você presta pra Arquitetura na UnB no meio do ano e eu presto pra Desenho Industrial, daí fazemos aula de desenho até lá. O que acha?”. Bom, acho algumas coisas… Acho que desenho mal, mas sempre quis aprender a desenhar. Acho que as aulas de desenho podem ocupar muito do meu tempo “livre” (também conhecido como “tempo em que você tem que fazer alguma coisa se não a idéia de que você não está fazendo nada e está no cursinho te enlouquece”), o que pode não ser bom. Acho uma boa idéia. Acho arriscado mudar de planos agora. Acho que não consigo decidir nada sozinha e preciso expôr minha confusão mental gritando no colégio e tendo uma semi-crise de choro e riso através de um post no blog.
Então, será que devo levar a sério o que minha boca falou há algumas horas? Se sim, será que devo mudar de curso? Se sim, será que não é tarde, “em cima da hora”? Justifique a sua resposta de maneira clara e concisa.
A massa da indústria de massa
Março 16, 2009
Durante a ditadura militar no Brasil, a mídia serviu de máquina de propaganda favorável ao modelo governamental vigente. Daí surgiram os questionamentos quanto à qualidade do que se vê na televisão. É fato que, após 64, muitos começaram a renegar a mídia televisiva brasileira e a criticar veemente as telenovelas, qualificando-as como alienantes.
É certo que autores de novelas têm em mãos um imenso poder, já que têm a oportunidade de entrar em quase todas as casas brasileiras abordando os mais diversos assuntos. Com a história da evolução das telenovelas é possível vermos também tabus serem superados e a mudança comportamental dos brasileiros ao longo dos anos. Como exemplos, podemos citar a maior inserção de atores negros, a presença de casais homossexuais e a abordagem de assuntos relacionados a preconceitos. A abordagem de tais assuntos em rede nacional mostra ser possível a construção de um novo cenário social, de uma sociedade mais consciente de suas diferenças e cada vez mais tolerante, mesmo que isso seja uma mudança lenta e gradativa.
A maior crítica quanto aos folhetins é serem mais usados como forma de diversão do que como algo informativo-crítico, daí dizer que alienam o povo. Segundo pesquisas de audiência, as novelas mais vistas são as da Rede Globo e elas obedecem a uma ordem lógica: a novela das 18 horas é, geralmente, uma novela de época que não precisa de muita atenção para ser compreendida; a novela das 19 horas é separada da novela das 18 pelo jornal local – esse horário é estratégico para esse jornal, já que é o horário em que a maioria das pessoas chega em casa após o expediente – e sua trama é, normalmente, recheada de situações cômicas, como se fossem feitas para relaxar o trabalhador após um longo dia de trabalho; a novela mais vista (sendo também o horário mais caro e com maior retorno para publicidade) é a das 20 horas (que faz tempo começa só às 21 horas), que vem logo após o Jornal Nacional – também colocado em um horário estratégico, já que enquanto o povo espera a novela, vê as notícias do Brasil e do mundo (sob apenas um olhar, mas isso é outro assunto) – e é a novela com a trama mais complicada, é normalmente nesta que acontecem as situações mais críticas ou disseminação de opiniões. O homem procura sempre estabelecer um ciclo ou se adequar a um, essa rotina da Globo se infiltra na cabeça das pessoas fazendo com que elas programem suas vidas de acordo com esses horários. Grande parte da população vive “para” a televisão e forma a sua personalidade – em grande parte – do que assiste, são produtos da mídia.
As telenovelas brasileiras não são só mocinhas ou vilãs, não são obras de arte ou empobrecimento cultural, são uma forma de falar com grande parte da população ao mesmo tempo. Pode ser que há tempos mantenham a mesma fórmula e pouco mudem de uma para outra, mas é certo que têm um grande poder. O povo é influenciado pelo que vê na TV, já que é mais fácil assimilar opiniões prontas do que pensar e criar a sua própria, aí poderíamos criticar as novelas, mas poderíamos também criticar os telejornais e até mesmo a mídia escrita. O problema não está na forma como a novela trata o povo, está em como a mídia como um todo os trata.
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PS: Tempo demais sem postar e agonia de ver isso aqui ficando cheio de teias de aranha me levaram a postar essa redação, a primeira que fiz esse ano – e única que fiz bem – pro cursinho.
PS2: Tive duas reclamações sobre o “abandono” do blog e ambas vieram da mesma pessoa… Beijo, Joss! Dedico esse post a você.
O Meio Termo
Fevereiro 2, 2009
Essa vida de férias, sem obrigações e afins, é deveras enfadonha. Mas não há mais do que reclamar, já que estou a poucas horas do fim de minhas lindas e tediosas férias e do início de uma nova era: o Cursinho.
Esperar ponto de corte cair é se iludir, ainda mais esse ano em que a UFG adotou cotas e ENEM. Não passei na UnB, não passei na UEG e fiz quase 10 pontos abaixo do ponto de corte pra Jornalismo na UFG.
Você pode fazer o ideal que é terminar o 3º ano e entrar em alguma universidade, mas pode acontecer também de não conseguir passar em nenhum vestibular e ficar preso. E agora? Você terminou o Ensino Médio mas é inútil não conseguiu entrar na faculdade! Deve desistir de estudar e começar a vender milho cozido nas praias do Nordeste? Nada disso, cursinho é a solução. Cursinho é o purgatório, enquanto Ensino Médio seria a vida e Universidade o céu (isso aos olhos de quem ainda não entrou na faculdade, claro). Cursinho é a sala de espera, cursinho é a vírgula, cursinho é… Cursinho é o lugar dos que não estudaram o bastante enquanto podiam ou dos que querem passar nos vestibulares mais difíceis e têm que continuar estudando feito loucos, mesmo tendo terminado o Ensino Médio.
Agradeço ao Mario Prata por ter escrito o livro que fez de minhas férias algo menos inútil e peço paciência e persistência ao Universo (por falta de ter a quem pedir). Aos meus parceiros que farão cursinho esse ano, desejo ótimos dias de estudo e não sorte. Aos que passaram nos vestibulares que queriam, desejo ótimos dias nos bares e juizo pra não perderem aulas demais ou se perderem achando que universidade é sinônimo de farra. See you soon, guys!
Chá Novo
Janeiro 22, 2009
Se tem algo em que grande maioria do mundo concorda é que vai emagrecer no próximo ano, essa é a promessa mais feita pelos seres humanos desde o primórdio dos tempos. Na verdade a promessa começa com a proximidade do verão, todo mundo querendo exibir o corpinho esbelto por aí nos dias quentes, mas a maioria das pessoas acaba é engordando nas férias… Daí chega Janeiro, trazendo um novo ano e a mulherada – maioria dos prometedores de plantão é fêmea, tem nem o que discutir – começa a pensar no carnaval, as academias lotam.
Dia 31 de Dezembro de 2009, estávamos eu e duas amigas sentadas na cama, com papel e caneta nas mãos, escrevendo as resoluções de ano novo e dentre as minhas estava “ser mais saudável”. Dois dias depois cheguei de viagem e já fui contando pra mamãe a minha mais nova invenção: voltar à academia.
Meu histórico de atividades físicas é, digamos assim, um fiasco. Sempre odiei exercício físico, sempre! Quando era pequena não gostava de pular corda nem elástico, eu era ruim, não queria treinar e tinha vergonha. Isso se aplica também à bicicleta, nunca aprendi a andar sem rodinhas. Gostava de natação, fiz durante muito tempo, mas como mudava muito de casa, acabei cansando de trocar sempre de academia também. Além do que eu tenho, desde pequerrucha, problema no ouvido. Não pode entrar água que pronto, é um deus nos acuda. Com 7 anos comecei a fazer ballet, fiz até os 13 e, enquanto isso, fiz também um pouco de pilates, jazz e sapateado. Eu realmente gostava/gosto de ballet, mas meu pai me convenceu a parar de fazer, era época de vacas magras e ele disse “você não vai seguir carreira mesmo, né?”. Eu era a gordinha da turma, mas mesmo assim fui pra Santos fazer curso de ballet e jazz, tá meobein? Mas concordei e acabei parando. Na quinta série, tentei vôlei, adorava ir pra quadra do colégio a pé, adorava andar pelo Centro da cidade, mas eu era ruim na atividade em si. Na sétima, comecei a frequentar uma academia, mas pouco tempo depois meu pai descobriu que eu estava faltando pra conversar com uma amiga na porta. Na oitava, tentei handball, mas quando percebi que mais uma vez era ruim, passei a faltar as aulas pra dar conselhos amorosos pra um casal de amigos (?) e depois comecei a fazer teatro. No Ensino Médio fiz tudo – yoga, leitura de clássicos, xadrez, teatro, etc – que servisse de nota pra Educação Física, menos exercício em si.
Pois bem, me matriculei na academia segunda-feira: musculação três vezes por semana e jump duas vezes por semana. Como boa sedentária que sou, faltei a aula de jump na segunda porque estava com preguiça queria ver Quarentena (o pior filme desde O Apanhador de Sonhos). Terça fui, mas chegando à porta da academia vi que do outro lado da rua tinha surgido um barzinho improvisado, o que eu penso? Que deveria estar bebendo (mãe e pai, eu não bebo) e comendo espetinho ao invés de estar indo fazer exercício físico? Também, mas não só isso. Pensei “pronto, dia desses um bêbado resolve me seguir!”. Sim, mania de perseguição deveria ser meu nome. Nada aconteceu e no outro dia lá estava eu, pronta pra sessão de tortura aula de Jump. Conheci professora e colegas, todas muito simpáticas, me senti bem. Daí me pedem pra subir numa balança e tirar minhas medidas, beleza, joga na cara o porque de eu estar aqui. Não bastasse isso, faltando uns 10 minutos pra acabar a aula, comecei a passar mal. Eu, tremendo, olhei em volta e vi a galera suando e tudo, mas todo mundo inteiro, menos eu: a mais nova da turma. Não bastasse estar tremendo, minha visão começou a escurecer. No final da aula, já estava bem e participei da melhor parte: receber massagem. Hoje estava tudo muito bom, tudo muito bem, até a hora de voltar pra casa. Estava subindo a viela quando percebi que vinha um homem atrás de mim, continuei andando, ele continuou andando, parei pra ver se vinha algum carro, olhei pra trás, ele ainda estava lá, voltei a andar, ele também, comecei a andar mais rápido, ele continuou andando, virei na minha rua, ele também, cheguei na porta de casa, cumprimentei o porteiro, fechei o portão e olhei pra trás, ele passou. Quando a porta do elevador fechou, me peguei pensando “porra! agora ele sabe onde eu moro, se um dia quiser me atacar, sabe que tem que ser antes da minha rua”. Eu sei, a probabilidade de o cara estar realmente me seguindo é pequena, mas diz isso pra minha mania de perseguição, diz! Só digo uma coisa: isso de fazer academia ainda vai me render muita história, certeza. E, tomara, uns quilinhos a menos.
O mundo todo e um apartamento
Janeiro 20, 2009
Conversando com uma amiga, enquanto olhávamos guias de viagem e livros de algumnúmero de coisas pra fazer antes de morrer, eu falei “Quer saber como vou descobrir que o cara é o cara da minha vida? Quando estivermos no carro e eu disser ‘não volta pra casa, vamos pra numseionde!’ e ele empolgar também”. Ela concordou, até terminamos a frase juntas. Pouco antes, vimos um livro que citava Jack Kerouac na capa e não sei como posso estar viva até hoje sem ter lido On The Road, livro em que Jack relata sua viagem de 7 anos pela rota 66 com seu amigo Neal (personagem principal do livro sob o nome Dean Moriarty).
Há algum tempo (é provável que ela não lembre, já que memória não é seu forte), conversando com essa mesma amiga, ela me disse que queria um apartamento pequeno fixo, mas queria viajar muito. Até então eu nunca tinha pensado nisso, mas pouco tempo depois me deparei com a comunidade Não Patrimonialistas no Orkut, cuja descrição é “Eu quero um pequeno apartamento e viajar pelo mundo! Você também? Então entra aí!”, li e me senti intimada a me juntar a essas pessoas. Pouco tempo depois, descobri outra comunidade, a Queria uma vida “road-movie” e, mais uma vez, me identifiquei. É exatamente isso o que quero, exatamente. Quero um apartamento pequeno pra ter pra onde voltar, mas quero uma mochila, uma câmera e um lugar pra anotar tudo o que eu descobrir durante as viagens que fizer.
Hoje eu estava desanimada, ando cansada, mesmo estando de férias e sem motivos para cansaço. Minha amiga reclamou, queria a Laura livin’ la vida loca, implorou pra sairmos de noite, mas no fim ela desanimou também. A moça é estudante de Arqueologia e já faz um tempo que vem insistindo e procurando companhia pra viajar pela América do Sul e Central, mochilão mesmo, sem frescura, mesmo não sabendo espanhol. Moça cheia de grandes sonhos, de grandes dúvidas, cheia de vontade de conhecer o mundo, conhecer as civilizações antigas, conhecer outras culturas, outras histórias… E no final, voltar pro seu pequeno apartamento fixo em algum lugar, com uma mochila e várias lembranças. De alguma forma, na conversa supracitada, ela despertou em mim algo que acabou se transformando em um sonho e hoje, mais uma vez com ela, me lembrei desse sonho e não pretendo mais esquecer. Ou desistir. Mas para todos que compartilham desse sonho, quero acrescentar o que Chris McCandless aprendeu com a sua viagem into the wild: “A felicidade só é real quando compartilhada”.
Ermo
Janeiro 5, 2009
Olhando pra agenda. Foi olhando pra agenda que ele percebeu quanto tempo passou, tempo contado nas páginas antigas de velhas agendas empilhadas em um canto do quarto. Quando eu fui ficar tão sozinho? Foi o que ele pensou quando pegou a agenda e não viu nenhum número para o qual ligar, nenhum além do delivery da pizzaria de sempre. Não estava com fome.
Continuou sentado, olhando pra agenda, a nova agenda, um novo ano, nenhuma novidade. Quando minha vida virou essa rotina? Foi o que ele se perguntou. Pegou uma agenda velha no meio das agendas velhas e a abriu, na primeira página, antes mesmo da página dos dados pessoais, havia um recado sem assinatura. Ele leu e sentiu uma onda de calor aquecer todo o seu corpo. Quando foi que perdi meu calor? Foi o que ele quis saber, mas logo esqueceu essa pergunta e quis saber outra resposta: Quem escreveu esse recado que me fez sentir como antigamente?
Horas se passaram e já não havia espaço no chão, só haviam agendas espalhadas, abertas e um homem no meio delas, aberto. Não sabia se chorava, se ria, não sabia nem o que sentia e se sentia. Quem eram aquelas pessoas das quais os aniversários ele nunca esquecia? Onde elas foram parar? Como ele foi parar sozinho no chão da sala, com mais de 40 anos e só o número do delivery da pizzaria na agenda?
Olhou o relógio, eram três da manhã. Tenho que trabalhar amanhã, foi o que ele pensou. Acho que estou com fome, foi o que ele disse ao pegar o telefone e discar o único número que sabia de cor. A pizza chegou em menos de 30 minutos, ele pagou, comeu, passou pela sala e foi dormir. O tempo não pára, não posso parar, foi o que ele repetiu até cair no sono.
Seis da manhã, o despertador tocou. Levantou, escovou os dentes, vestiu o terno, pegou a pasta, caminhou por cima das agendas espalhadas pelo chão. Não tropeçou nenhuma vez.



