Mais um, eu sei
Novembro 4, 2009
“Qual é a porra do seu problema, caralho?” foi a maneira mais sutil que ela conseguiu pensar pra quebrar o silêncio. Incômodo silêncio que se formou por incapacidade de organizar os pensamentos. Dele, claro. Na cabeça dela estava tudo bem claro, extremamente claro, mais claro só dizendo tudo. E discutindo tudo.
A resposta foi mais silêncio. Se fosse possível, a cabeça dele explodiria de tanto pensar. “Mas pra que merda serve pensar tanto e não dizer nada? Que morra então!” foi a maneira menos violenta que ela encontrou pra dizer adeus. Estavam separados fisicamente, mas durante todo o silêncio estiveram naquele quarto de paredes azuis. Naquela cama que presenciou choro, sono, riso, tesão. E agora mais um adeus. Mais um adeus pra eles chamarem de deles, mais um final pra chamarmos de nosso.
“É exatamente isso: nós não funcionamos juntos. Funciona nos primeiros dias pela saudade mútua, aquela vontade mútua de um pelo outro. Mas não tem depois. É só aquilo. Depois fica vazio. Eu não quero nada pela metade.”
Taurus
Outubro 25, 2009
Que pavor de voltar à rotina! Não quero ir dormir por medo de acordar na segunda-feira. É sério, por mais imbecil que possa soar. Essa loucura anti-rotina é tão típica. A vontade louca que dá na noite de domingo de sair correndo contra o tempo, de não aceitar de maneira alguma que ainda tem inúmeros trabalhos até as férias chegarem. Que desespero, meu deus, que desespero!
Eu quero o Rio. Eu quero Pirenópolis. Quero uma cerveja do bar da praça de Caldas Novas. Quero Silvânia. Quero Londres! Quero falar francês no Canadá. Quero ver tv o dia todo. Quero seus pés nos meus e não ver as horas passarem.
Mais uma vez, eu sei
Outubro 15, 2009
Pode me chamar de precipitada, mas eu vi uma foto de 2007 e pensei “nossa, meu cabelo está bem parecido hoje com o jeito que era nessa época”. Logo depois pensei “mas essa carinha ingênua, fofa, ficou com o tempo”. Eu me senti… velha. Como se aquela foto com todo um ar de ingenuidade, de fofura, não pudesse acontecer de novo. Aquela é a Laurinha. Que foi.
É que, às vezes, parece que tudo passa tão rápido que mesmo os mais detalhistas perdem os momentos. Simplesmente os dias passam a ser iguais e isso é perder. Já me pego pensando no quanto estou perdendo em dias tediosos. Tem dias em que penso que não vou lembrar de nada do que vivi naquele dia, então não tem motivo ter vivido, foi só mais um dia. Qual a relevância dos dias que são só mais um?
Quando você pensa no que (não) está fazendo, dá vontade de sair e mudar tudo. Simplesmente tudo. E de uma vez só. Mas… como? Eu tenho essa vontade sempre, sempre. Eu não consigo ficar parada no mesmo lugar tanto tempo, mas sou covarde demais pra mudar algo radicalmente. E mesmo que tivesse atitude, O QUE mudar? O que eu posso mudar que não me faça jogar tudo pro alto? No final é isso mesmo: covardia. Eu tenho é medo de mudar algo e desabar todo o resto.
(Adaptado de uma conversa com o amigo Riccardo Joss)
All Is Full Of Love? ou Uma Linha e um Parêntesis
Outubro 6, 2009
Às vezes eu só queria um romancezinho no estilo dos filmes água-com-açúcar pra chamar de meu.
(Lembra quando eu disse que não prometia textos pra ninguém e você disse que eu escreveria, sim, sobre você? Considere este o seu texto)
Pronto, falei
Outubro 1, 2009
Há muito a dizer, sempre há. Mesmo no silêncio de uma folha em branco, mesmo no silêncio de uma sessão escura de cinema, mesmo no silêncio eterno do hiato criativo. Há o medo de estar só se repetindo sempre, texto atrás de texto, sempre os mesmos temas, sempre a mesma agonia que leva a escrever, a vontade incontrolável de dizer tudo de uma vez. Aquela velha agonia adolescente de guardar tudo pra si ou de, caso resolva dizer algo, ouvir uma tentativa de consolo pós-desabafo. E se eu quiser só dizer? Eu só quero digitar e postar, só quero gritar e ouvir o silêncio depois. Não estou pedindo um ombro amigo, uma mãozinha besta pra bater nas minhas costas num gesto que deveria dizer que vai tudo ficar bem, mesmo que eu não queira tudo bem. Quer coisa mais sem graça do que tudo no seu devido lugar?
É incrível como algumas pessoas são ligadas, mesmo que ambas mudem, mesmo que mudem e se tornem outras pessoas, sempre arrepiarão depois de um certo verso, sempre dirão “era exatamente isso que eu ia dizer agora!”. Suspeito que essas sejam as almas-gêmeas. E ouvi dizer que “soulmates never die”.
A calmaria pode levar à confusão. Pelo menos de uma mente que precisa sempre de uma sacudida, de um “momento uepa”. Quem cita Vídeo Show em um texto, meu deus? Haha.
Tempo demais sem ler, sem escrever… Emburrecer faz parte? Aliás, e quando alguém que já se julgou tão diferente se descobre raso? Existem as pessoas profundas, aquelas que entendem do que dizem, aquelas que nunca reclamarão de falta de argumentos. Existem as pessoas vazias, aquelas que são só a capa mesmo e ninguém espera mais do que isso. Mas existe um tipo pior de pessoa, a rasa. A pessoa rasa é aquela que você vê e sabe que não é superficial, mas quando começa a explorar vem a decepção: na verdade a pessoa não é muito mais do que aquilo que parecia à primeira vista. Ela parece interessante, intrigante, mas não passa daquilo. Parece, só.
Ah, mas o que importa são as pausas na loucura do dia-a-dia.
A Tristeza Permitida
Julho 26, 2009
Crônica de Martha Medeiros retirada do livro “Doidas e Santas“
Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que normalmente faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa,ir pro computador, sair para compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem para sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?
Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer para eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.
Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.
A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro da nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.
Depressão é coisa muito mais séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou com si mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.
“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago de razão/ eu ando tão down…“. Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim“, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar o seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinicius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.
Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip hop, e nem por isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.
Mulher
Maio 14, 2009
Um dia inteiro, cheio. Parecia estar no piloto automático. Quanto tempo passou dando as respostas esperadas a tudo o que lhe era perguntado?
Abriu o box, girou a torneira, deixou a água cair em seus ombros. Molhou seus longos cabelos, seios, ventre, pés. Molharam suas bochechas as lágrimas que caíram no mesmo ritmo dos pingos do chuveiro.
Sempre invejou as meninas aventureiras das histórias que ouvia falar, aquelas que saíam de casa aos quatorze anos em busca de seus sonhos. Viveu com a avó até os dezenove, quando passou no vestibular e mudou de estado.
Pegou o sabonete, esfregou o rosto. Odiava molhar o rosto, sentia como se fosse afogar e odiava aqueles segundos que era obrigada a passar de olhos fechados.
Durante todo o curso foi a aluna exemplar. Vivia para os estudos e se teve amigos enquanto isso, foram um ou dois. Era sozinha. Depois que a avó morreu, o telefone nem tocava mais.
Pegou o xampu e esfregou o couro cabeludo. Seus cabelos eram longos como sua avó dizia que teriam de ser, assim como suas roupas. Tudo era comedido, regulado.
Passou o condicionador em toda a extensão do cabelo, essa era sua parte favorita. Penteou os fios loiros de raiz a ponta.
Já há um ano gostava de um rapaz do trabalho, mas não podia dizer. Era presa em si mesma, encadeada. Já não agüentava mais chorar no banho. Sozinha.
A água escorria por todo o seu corpo. Pegou o sabonete e esfregou na barriga com força, com raiva. Chorou mais. Queria ser livre, decidira ser livre.
Deu um nó no cabelo, lavou a nuca, lavou as costas, lavou o pescoço. Ensaboou as coxas, olhos fechados. Sentiu.
O ritmo dos pingos e o de seus gemidos se misturavam, um uníssono. Um grito baixo de independência.
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Abril 23, 2009
Queria mesmo conversar com alguém, dizer que reli o e-mail que mandei pra alguém agora desimportante, mas voltei no tempo. Não, na verdade queria discutir algo importante, algo que ouvi hoje na rádio no caminho pro colégio, talvez dizer sobre o tom irônico na voz do jornalista ao encerrar a entrevista, talvez sobre a matéria sobre escassez de água que estou lendo.
Passa mais uma tarde e fico esperando dizer algo, resolver tudo. “Não quero, não dá” e fim. “Manda pro conserto, foda-se as fotos, só quero que funcione” e pronto. Tagarelice é só efeito colateral da falta do que dizer, no final penso só “I’m just saying…” e nada, não estou dizendo nada.
Peço férias e reclamo dos feriados. Pra que tanto feriado? Pra cortar o ânimo, dar aquele gostinho de “tenho tempo” e acabar do nada, numa terça-feira. Férias em breve, mas antes outra prova importante. Poderia ser “A” prova importante, mas será só mais uma, eu sei. Quanto um ser humano consegue enrolar? Eu digo: três meses e quatro pastas cheias de folhas vazias.
Agora é a vez das promessas: nunca mais releio e-mail pra alguém “agora desimportante”, discutirei coisas importantes e opinarei, direi o que tenho a dizer, não direi o que não tenho a dizer, não contarei os dias pros dias de folga, não reclamarei das oportunidades de ter mais tempo, não esperarei uma quinta pasta encher. Não prometerei nada que não possa cumprir. E descumprirei sempre o que puder, eu sei.
Da diferença que palavras podem fazer
Abril 13, 2009
Às vezes reclamamos por ter que ouvir certas coisas. Às vezes, por termos que esperar emails, telefonemas. Às vezes, por não sabermos falar sobre tal assunto ou até mesmo por faltar assunto. Muitas vezes o que faz toda a diferença é a palavra. O poder da palavra (e de sua ausência) é incrível. Daí minha paixão por elas em textos, filmes (movie quotes), músicas, etc.
Cada vez mais vejo pessoas se declararem procrastinadoras. Será este o novo mal estar da civilização contemporânea? Tantopralertantoprafazertantoprapensartantotudodeumavezagoratantotanto! E tudo deixado pra depois, é “tanto” demais pra tempo de menos. Ou preguiça demais. Ou preguiça demais e tempo de menos.
De vez em quando, consigo ser o cúmulo da preguiça. Soube disso ao abrir o Reader e ver que abri mão das inscrições em “Atualidades Notícias” e “Cultura”. Isso aconteceu aos poucos, cancelando as inscrições de jornal por jornal, mas acabei assinando só feeds de blogs. Agora, não assino feed de nenhum blog além dos que já tenho, sei que vou acabar enrolando e acumulando e talvez até mesmo desistindo. Sei disso porque passei um bom tempo (meses?) sem ler o que aparecia de novo em um blog que tanto gosto, o Até aqui tudo bem.
Jusqu’ici tout va bien (ou Até aqui tudo bem) chama atenção de cara pelo nome. Mais ainda com a “explicação” do nome que aparece na descrição do blog: “É a história de um homem que cai de um prédio. Enquanto cai, ele repete para se acalmar: até aqui tá tudo bem, até aqui tá tudo bem, até aqui…”. Tem como não ficar, no mínimo, intrigado? É lendo os posts que descobrimos que o blog é feito por textos dos quais fazem parte desde relatos do cotidiano, que nos acordam para as pequenas coisas da vida, até opiniões pertinentes sobre assuntos mais sérios. Isso tudo transmitindo uma leveza e bem-estar incríveis!
Não lembro como nem quando encontrei o blog, mas sou grata por tê-lo encontrado. Aline é a pessoa por trás das palavras e eis aí uma pessoa que sabe usá-las. Daí o início deste post, hoje estava lendo alguns textos que estava enrolando para ler já há algum tempo e, ao ler um texto do “Até aqui tudo bem”, lembrei o porque de gostar tanto do blog: o poder que as palavras lá escritas têm de nos envolver.
É aí que tenho que dizer que podem enrolar o tanto que conseguirem, deixar os feeds acumulando e os emails a responder. Mas saibam, procrastinadores queridos, que palavras podem mudar seu dia, quiçá sua vida. E é por isso que recomendo acompanharem os textos no Até aqui tudo bem e também os 140 caracteres no twitter.
Estátua de Sal
Março 22, 2009
Tantos passos já andados e agora ouço algo que me faz parar e pensar em olhar pra trás. Como poderia ter fé em algo que nunca me deu motivos pra acreditar? Tive sonhos e meses e nada.
Os tolos pensam demais, planejam, ensaiam o que dizer e acabam nunca realizando. Eu, mesmo tola, disse. Disse várias vezes. Disse tantas vezes. Por meias palavras, talvez, mas são as meias palavras que me constroem inteira. Quem assistia entendia, por que você não entenderia? Entendia. Cansa saber que entendia. Cansa não entender. Cansa ser sua sem ser. De cansaço em cansaço, abri mão. Por meio de palavras, abri mão. Meias palavras de uma desistência inteira. Decisão tomada, segui.
Ah, prefiro continuar a andar e ouvir o som só dos meus passos a virar sal.


